Quaresma: a preparação para a Páscoa
Entrada triunfal de Cristo em Jerusalém (Foto: Lawrence OP / Flickr)

Quaresma: a preparação para a Páscoa

Como vimos no artigo anterior (veja aqui), o Ano Litúrgico surgiu paulatinamente, como uma grande construção. E a primeira grande “sala” desse glorioso edifício foi a Páscoa, celebrada desde os tempos dos Apóstolos. Contudo, não tardou muito para surgir o átrio de entrada desse recinto sagrado: a Quaresma.

A Quaresma tem sua origem em três ritos litúrgicos-sacramentais: a preparação dos catecúmenos para o Batismo, a penitência pública dos pecadores para que pudessem retornar ao seio da comunidade, e a preparação dos fieis para a celebração da Páscoa.

Por volta do século II já se tem as primeiras notícias sobre uma preparação pascal de dois dias, voltada à penitência e à conversão, durante a qual se fazia um rigoroso jejum. No século III em Roma essa preparação tomou maior proporção, e passou a ter a duração de três semanas, durante a qual se jejuava todos os dias exceto aos sábados e domingos. No século IV passou a durar seis semanas.

Mas o progresso desse rito não tinha atingido sua perfeição. Ainda durante o século IV o cômpito do jejum foi modificado para quarenta dias, prévios ao Tríduo Pascal, a contar desde o primeiro domingo da Quaresma até a Quinta-Feira Santa, de onde se passou a chamar Quaresma, proveniente de Quadragesima, quarenta dias, já que Nosso Senhor Jesus Cristo jejuou quarenta dias no deserto. E assim Ela é celebrada em nossos dias.[1]

Preparação da comunidade cristã para a Páscoa

A preparação para a Páscoa sempre foi o principal motivo desse período penitencial, embora se lhe tenha posteriormente agregado outros significados. Essa penitência era comum a todos os fieis, como “um retiro espiritual coletivo de quarenta dias, durante os quais a Igreja, propondo a seus filhos o exemplo que Cristo lhe deu em seu retiro no deserto, se prepara para a celebração das solenidades pascais com a purificação do coração e uma prática perfeita da vida cristã.”[2]

Portanto, era um tempo no qual os fieis se esforçavam por alcançar uma profunda renovação interior, uma mudança de vida, uma verdadeira conversão. Essa era a finalidade das práticas ascéticas que eles praticavam nesse período.

O catecumenato

O catecumenato era o período de preparação para o Batismo, o qual durava três anos e culminava na cerimônia de Sábado Santo, imediatamente anterior ao domingo de Páscoa. Com o passar do tempo essa preparação foi se tornando mais breve, pois a doutrina católica já tinha permeado a sociedade e não se fazia mais necessário um período tão longo. Então os candidatos ao Batismo se inscreviam no início da Quaresma e durante Ela recebiam minuciosa instrução sobre a doutrina de Cristo.

Mas, no início do século IV, o catecumenato desapareceu quase completamente. Já se faziam raros os batismos de adultos, e as crianças que se apresentavam para serem batizadas procediam de famílias católicas. Isso tudo provocou uma profunda reorganização da preparação batismal. Por isso, o tema do Batismo está tão presente na liturgia quaresmal.

Como esse costume caiu em desuso, a Quaresma cada vez mais assumiu um caráter penitencial.

A Penitência Canônica

No início da Igreja os pecadores eram tratados com muito mais rigor do que em nossos dias. Se um batizado cometesse algum pecado grave, sobretudo se fosse público, era proibido de assistir às celebrações eucarísticas, e devia fazer dura e longa penitência para comprovar seu arrependimento.

Durante a Quaresma, esses pecadores percorriam o último trecho de seu caminho penitencial. Se inscreviam como pecadores no primeiro domingo da Quaresma e faziam severas penitências e muitas orações. Eram acompanhados por toda comunidade, a qual rezava e jejuava por eles. Aos poucos o rigor das penitências foi sendo abrandado pela própria Igreja.

Quarta-feira de Cinzas

Como esses penitentes não podiam assistir a Missa, e como queriam naturalmente participar do início da liturgia eucarística, a primeira parte desta estava voltada a eles. Foi assim que surgiu o rito da imposição das cinzas, costume que já existia entre o Povo Eleito, em sinal de arrependimento pelos pecados.

As cinzas simbolizam a débil condição do homem, que caminha irremediavelmente para a morte, o que nos facilita a prática da humildade; também nos ajuda a recordar a condição pecadora da humanidade, incitando-a à penitência interior e mostrando a necessidade da conversão.

Contudo, mesmo com a Penitência Canônica tendo desaparecido, o rito da imposição das cinzas permaneceu até nossos dias, e mais ainda, se estendeu a todos os fieis, e a partir do século XI se tornou obrigatório.

Conservou-se para ele a data tradicional na qual era celebrado, a quarta-feira prévia ao primeiro domingo da Quaresma: a Quarta-Feira de Cinzas. Atualmente é esse dia que a Igreja considera como início da Quaresma.

Domingo de Ramos

Depois da Quarta-Feira de Cinzas, o Domingo de Ramos é o segundo grande marco dentro do período quaresmal. Em Roma, desde o século V, ele é celebrado como Domingo da Paixão. A Paixão do Senhor será o único tema deste domingo até o século X. Em outros lugares, porém, o núcleo dessa celebração era a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, dias antes de sua prisão e morte.

Aos poucos todos acabaram adotando essa segunda forma de ver o último domingo da Quaresma, e até em Roma ela prevaleceu a partir de finais do século X. Com o passar do tempo, a cerimônia foi adquirindo inúmeros ritos, alguns dos quais permanecem até hoje. Um deles é a procissão solene e a bênção dos ramos. Uma parte desses ramos é queimada posteriormente para serem utilizados na imposição das cinzas na Quaresma do ano seguinte.

Porém, o papa Paulo VI quis fazer conciliar os dois ritos, a procissão solene com a celebração do domingo da Paixão, resgatando assim o costume romano dos primeiros séculos. Atualmente é o costume que permanece, sendo um só e mesmo rito, o qual se inicia com a procissão solene para simbolizar e homenagear Cristo como Rei, e à continuação a celebração da Missa, a qual não outro rito de entrada senão a mesma procissão dos ramos. Por isso, hoje essa celebração recebe o nome de “Domingo de Ramos da Paixão do Senhor”.

Esse domingo abre a Semana Santa, a qual conduz para o ápice de toda liturgia católica: o Tríduo Pascal, que será objeto de nosso próximo artigo.

 

[1] Durante o história a Quaresma sofreu muitas alterações. Uma delas foi a criação da pré-quaresma, datada do século VI, e que começava três domingos antes do primeiro domingo da Quaresma, e eram denominados Quinquagesima (50 dias antes da Páscoa), Sexagesima (60 dias antes) e Septuagesima (70 dias antes). Esse período desapareceu na reforma do calendário em 1969.

[2] São Leão Magno. Apud: José Abad Ibañez – Manuel Garrido. Iniciación a la liturgia de la Iglesia. 2. ed. Madrid: Palabra, 1988, p. 693.

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