Domingo, cerne da vida litúrgica da Igreja Católica
Jesus Cristo Juiz, por Fra Angélico, Orvieto - Itália (foto: Asaf Braverman / Flickr)

Domingo, cerne da vida litúrgica da Igreja Católica

Depois de ter explicado o que é o Ano Litúrgico no artigo anterior, cabe-nos tratar das partes que o compõe, ou seja, os seus ciclos. Mas antes disso é necessário que façamos um pequeno parênteses sobre como a Igreja Católica considera e celebra o domingo, para uma adequada compreensão do conjunto de sua Liturgia.

Ao povo judeu, o Senhor determinou que deveria guardar o sábado e consagrá-lo a Ele. Esse costume foi observado até a vinda do Messias, e até posteriormente pelos primeiros discípulos, os quais provinham do judaísmo e trouxeram consigo muitos dos costumes judaicos.[1] Porém, aos poucos o domingo começou a tomar destaque pelo fato da Ressurreição de Cristo ter ocorrido nesse dia. Sem a Ressurreição nossa Fé seria vã, disse o Apóstolo. (cf. 1 Cor 15, 14)

Do ponto de vista histórico-cronológico, o domingo é a primeira festa cristã. Mais ainda, durante muito tempo foi a única.[2] Dies Dominicus, dia do Senhor, eis sua etimologia, que aos poucos se transformou em domingo. Ele sempre foi considerado o primeiro dia da semana, primeiro da criação. Mas com o fato da Ressurreição de Cristo, ele adquiriu para os católicos mais um significado: o dia da nova criação, superior à primeira, dia da Redenção da humanidade, no qual fomos libertados da escravidão do pecado e dos grilhões da morte eterna.

Independente da etimologia ou da origem histórica, o que não deixa margem a dúvida é que desde os primórdios do cristianismo o domingo era o dia no qual se devia celebrar a Ressurreição do Salvador. É o que atesta o Sagrado Magistério no Concílio Vaticano II através da Sacrosanctum Concilium: “A Igreja, por uma tradição apostólica, que tem sua origem no mesmo dia da Ressurreição de Cristo, celebra o mistério pascal a cada oito dias, no dia que é chamado com razão ‘dia do Senhor’ o domingo.” (SC 106) “Desde então, Ela nunca deixou de se reunir para celebrar o mesmo mistério pascal, celebrando a Eucaristia, na qual se fazem novamente presentes a vitória e o triunfo de sua Morte.” (SC 6)

Mas, assueta vilescunt, as coisas rotineiras se desvalorizam. Com o passar dos anos o fervor inicial foi decaindo, e aos poucos os fieis colocaram de lado o dever de ir à Missa dominical para cuidar de seus próprios afazeres, seus negócios e até trocaram o Sagrado Banquete por divertimentos. Além disso, outro fator juntou-se a esse: passou-se a celebrar com muita frequência nos domingos as festas dos santos, e com isso ele perdeu seu sentido inicial de celebração da Ressurreição do Senhor, da Páscoa, e passou a ser um dia comum.

Porém, entre os séculos V e VI, teve início o desenvolvimento do Ano Litúrgico.[3] Começou-se a organizar a Quaresma e o Tempo Pascal, e um pouco mais tarde o Advento e a Natividade do Senhor. Isso de certa forma acentuou ainda mais o desviou do sentido original do domingo que é a celebração da Ressurreição, pois que em cada tempo se celebrava sua respectiva festa, mas por outro lado, reaproximou as pessoas da Igreja e reascendeu o fervor pela Missa e pela Liturgia.

Mas o que acontecia nos domingos do ano que ocorriam fora desses tempos litúrgicos? Com grande sabedoria, a Igreja voltou a acentuar o sentido original do domingo, dando-lhe cada vez mais um caráter de solenidade pela celebração da Ressurreição de Cristo.[4] Com isso, a última “peça” do Ano Litúrgico acabava de nascer: o Tempo Comum.

Foi mais ou menos nessa época também que se começou a fazer a distinção entre o “temporal” e o “santoral”, atribuindo uma hierarquia de valores para as festas de cada tempo específico (Advento, Natal, Quaresma e Páscoa) e a dos santos, conferindo especial atenção às festas de Nossa Senhora. Assim, manteve-se a celebração hebdomandária da Páscoa, portanto a cada domingo, mas não se abandonou a consideração de Nossa Senhora e dos santos na Liturgia.

Feita esta introdução e deixando bem claro o papel primordial do domingo na vida litúrgica da Igreja, passaremos a explicar como surgiu e se desenvolveu cada um dos tempos litúrgicos, bem como o critério utilizado para a determinação de suas datas, mais especialmente a da Páscoa. Acompanhe-nos, caro leitor, no próximo artigo.

 

[1] A prática de tais costumes, especialmente da circuncisão, foi motivo de inúmeras desavenças entre os cristãos primitivos, atingindo inclusive o Colégio Apostólico. Não cabe tratar desse assunto nesse artigo, mas o leitor poderá encontrar mais detalhes em At 15, 1ss e Gl 2, 11-16.

[2] Cf. José Abad Ibañez – Manuel Garrido. Iniciación a la liturgia de la Iglesia. 2. ed. Madrid: Palabra, 1988, p. 667.

[3] Cf. Idem., p. 672.

[4] Isso tudo que foi explicado não quer afirmar que em algum momento a Igreja deixou de celebrar ou considerar a Ressurreição em cada domingo, mas tão somente que houve épocas em que o aspecto da Ressurreição teve maior ou menor relevo no panorama litúrgico.

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