Fora da Igreja não há salvação
Foto: Christopher Chan / Flickr

Fora da Igreja não há salvação

Segundo São Cipriano quem não tem a Igreja por Mãe, não tem a Deus por Pai, portanto, extra Ecclesia nulla salus. Como conciliar esta afirmação com a recente declaração do Papa Francisco, de que “a privatização da salvação é uma estrada errada”?

Sabemos que Deus não tinha necessidade de criar o homem. Foi por amor que o fez, a fim de que este pudesse participar de sua felicidade. Ele não nos criou para a infelicidade nem para a perdição, mas para a vida eterna: “Deus não é o autor da morte, a perdição dos vivos não lhe dá alegria alguma.” (Sb 1, 13) E São Paulo o declara a Timóteo: “Deus […] deseja que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade.” (1 Tim 2, 4) Em diversas passagens das Escrituras vemos a referência de Deus como “amor” (cf. Jo 4, 16), até o ponto de comparar-Se com uma mãe que acaricia a seu filho. (cf. Is 49, 15)

Ora, o pecado original de alguma maneira quebrou essa primeira iniciativa divina, fazendo com que o homem estivesse inclinado virulentamente para o pecado e para a perdição. Entretanto, não há nada que não aconteça que não dê glória a Deus, e o pecado foi a grande oportunidade que Ele teve de mostrar o amor infinito que possui por sua criatura, tomando a iniciativa de enviar seu próprio Filho para salvar a humanidade pecadora. E assim o fez através de sua Paixão e morte na Cruz, como diz a Escritura: “Certo é, e digno de ser por todos recebido, que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores” (1 Tim 1, 15); o Filho de Deus veio para que “o mundo seja salvo por Ele” (Jo 3, 17), “para ser o salvador do mundo” (1 Jo 4, 14). Diz também que “o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate de muitos.” (Mt 20, 28) São Pedro proclama ante o Sinédrio: “Em nenhum outro há salvação, porque debaixo do céu nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual devamos ser salvos.” (At 4, 11-12)

Contudo, essa salvação adquirida por tão alto preço, não poderia ficar longe do alcance dos homens. Por isso, Deus dispôs que a Igreja fosse a “tesoureira” dos méritos da Redenção, aplicando-os aos homens, mormente através dos sacramentos, para que dessa forma eles obtivessem a salvação.

Com o passar dos séculos, essa convicção de que a Igreja é uma arca de salvação, que, similarmente à arca de Noé que salvou os homens do dilúvio, os salva do pecado e da condenação, foi fortalecendo-se cada vez mais, como vemos nos escritos dos Padres da Igreja: Santo Inácio de Antioquia (+ 107) afirma: “Não vos enganeis, meus irmãos: se alguém segue a um cismático, não herda o reino de Deus. Aquele que caminha em sentido diverso da Igreja, no pode ter parte na Paixão do Senhor”; Orígenes (185-253) por sua vez sustenta: “Que ninguém se engane a si mesmo, fora desta casa única, quer dizer, fora da Igreja, ninguém se salva. E, se alguém sai dela, ele mesmo se faz réu de sua própria morte”.

Mesmo recentemente, vemos, o Magistério da Igreja reafirmando essa doutrina:

“esta Igreja peregrina é necessária para a salvação (…) por onde não poderiam salvar-se aqueles que, sabendo que a Igreja Católica foi instituída por Jesus Cristo como necessária, se recusam a entrar nela ou não querem nela permanecer” (Lumen Gentium 14). Porém, segundo a Dominus Jesus, “esta doutrina não se contrapõe à vontade salvífica universal de Deus (cf. 1 Tm 2, 4); daí “a necessidade de manter unidas estas duas verdades: a real possibilidade de salvação em Cristo para todos os homens, e a necessidade da Igreja para essa salvação”. (cf. Redemptoris Misio, de João Paulo II)

Poder-se-ia objetar que essa afirmação tinha real força no começo da Igreja, em que existiam os lapsi, cristãos que renegavam sua fé por medo da morte, ou as heresias, que afastavam os crentes da verdadeira doutrina legada por Nosso Senhor à Igreja, ou então por causa do apostolado com os pagãos. Todos esses fatores levaram a Igreja a se auto-afirmar com insistência depositária única da salvação.

Porém, vemos que a afirmação do Concílio “se recusam a entrar nela ou não querem nela permanecer”, demonstra a clave do problema. Veremos mais adiante o que diz a Igreja sobre aqueles que não se incluem nesse caso.

Há uma razão profunda por onde vemos a indefectibilidade da Igreja: a própria Encarnação, como vimos no começo, a vemos sempre conexa inseparavelmente ao mistério da Redenção. Ora, se é verdade que Jesus Cristo é Deus feito homem, Salvador do mundo e Redentor da humanidade, é também verdade que sua presença na terra não pode limitar-se a sua existência histórica na terra, não é mais possível apagar sua pegada entre nós. Era necessário perpetuar esse mistério salvífico, e o mais sapiencial era deixar uma instituição divina, por Ele fundada, que se encarregasse disso.

A Dominus Jesus afirma isso ao dizer que Jesus Cristo está presente na Igreja e opera a salvação na Igreja e através dela. E diz claramente que, salvaguardado o respeito e a consideração que temos às demais comunidades eclesiais, que poderão, a seu modo, ser instrumentos de graça e verdade, os fiéis são obrigados a professar que existe uma continuidade histórica — radicada na sucessão apostólica — entre a Igreja fundada por Cristo e a Igreja Católica. Existe portanto uma única Igreja de Cristo, que subsiste na Igreja Católica, governada pelo Sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele. E é através dela que recebemos a salvação.

Ora, uma afirmação deste porte não pode ser entendida como uma arbitrariedade e uma auto-segregação feita pela Igreja. Por isso é mister saber que é doutrina tradicional que sempre foi plenamente aceita pela Igreja que existe possibilidade de salvação fora da Igreja, que pode dar-se de acordo com as peculiaridades próprias de cada situação. Para aqueles que conhecem a Igreja e reconhecem-na como verdadeira, ainda que não se incorporem nela pelo batismo sacramental, por falta de oportunidade (como acontecia a muitos catecúmenos martirizados no início do cristianismo) podem alcançar a salvação pelo batismo de desejo, como afirma São Tomás (S. Th., III, q. 68, a. 2) e já antes dele, Santo Agostinho.

Para aqueles que ainda não estão em plena comunhão com a Igreja, vemos Santo Agostinho dizer: “Não devem ser tidos por hereges os que não defendem sua sentença com empedernida animosidade, mesmo que ela seja perversa e falsa, […] contanto que busquem por outra parte, com prudente diligência, a verdade, e estejam dispostos a se corrigirem quando a encontrem”.

A Igreja nunca aceitou a falsa ideia de que não poderão salvar-se os que não são formal e visivelmente membros da Igreja. Deus não está amarrado aos meios que Ele mesmo criou para salvar os homens. Por isso Pio XII, na Mystici Corporis Christi, condena a teoria rigorista de Leonard Feeney, que afirmava que não pode haver salvação fora do corpo visível da Igreja.

Segundo o Papa João Paulo II,

“a salvação de Cristo tornase acessível em virtude de uma graça que, embora dotada de uma misteriosa relação com a Igreja, todavia não os introduz formalmente nela […] esta graça provém de Cristo, é fruto do seu sacrifício e é comunicada pelo Espírito Santo”. (Redemptoris Misio 10) E a Dominus Jesus: “Quanto ao modo como a graça salvífica de Deus atinge os não cristãos, o Concílio Vaticano II limitouse a afirmar que Deus a dá “por caminhos só por Ele conhecidos.” (Ad Gentes 7) E Paulo VI ainda afirma que para a salvação destes requer-se que de acordo com sua consciência, busquem a Deus com coração sincero e procurem cumprir sua vontade.

Dessa maneira, concluímos que a Igreja é fruto do amor de Deus pelos homens, fundada por Ele para salvar a todos. E para aqueles que desejam a salvação existe um porto seguro onde podem repousar sua alma. Mas para aqueles que infelizmente não sabem de sua existência, o próprio Deus, criador do homem, da Igreja e do céu, proverá a melhor forma de salvá-lo.

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