Jesus é homem ou é Deus?
Sagrado Coração de Jesus, igreja do Sagrado Coração de Jesus em São Paulo

Jesus é homem ou é Deus?

“O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida; O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que estejais em comunhão conosco; e a nossa comunhão é com o Pai, e com seu Filho Jesus Cristo.” (1 João 1, 1-3)

Quando abordamos um assunto de caráter sobrenatural, devemos ter em linha de conta que a capacidade humana muitas vezes é insuficiente para compreender, em sua totalidade, a realidade divina que está por detrás. Disso encontramos eloquente exemplo nas palavras de João, que acima citamos.

Nota-se nesse trecho sublime de sua carta que o vocabulário humano é incapaz de exprimir certas realidades, as quais Deus comunica de modo sobrenatural, à maneira das verdades da Fé. E o assunto que nos propusemos tratar neste artigo é intrinsecamente um assunto de Fé! Partimos, por isso, do pressuposto de que nossos leitores a possuem, e visamos transmitir a doutrina da Igreja, sem querer convencer racionalmente aqueles que se declaram ateus.

“O que era desde o princípio”, neste trecho o autor do texto sagrado parece afirmar que se refere a Alguém que existe desde sempre, ou mais claramente, que não tem princípio. Essa atribuição é característica exclusiva de Deus, único que não teve início e nem terá fim. Porém, o Apóstolo amado aplica esse atributo a Jesus Cristo.

“E as nossas mãos tocaram da Palavra da Vida”, também são palavras referentes a Jesus. Mas como sabemos, Deus não é tangível, não é palpável. Ele é puramente espiritual, não se pode tocá-lo. Como compreender essa aparente contradição? “O Verbo de Deus se fez carne, e habitou entre nós.” (Jo 1, 14) Mas afinal, Jesus é homem ou é Deus?

Esse e muitos outros trechos do texto bíblico neotestamentário deixam entrever uma das maiores verdades de nossa Fé: Jesus Cristo é Deus e homem ao mesmo tempo, sem divisão nem fusão de ambas naturezas, mas sim uma perfeita união delas na Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

Muitas foram as discussões teológicas que no passado ocuparam o cenário da Igreja. Diversas doutrinas foram propostas por homens de boa e má fé. Nasceram, hélas, heresias que a muitos desviou do caminho da ortodoxia. Como resposta, a Igreja explicitou, através dos santos Padres, uma sólida doutrina, a qual é até nossos dias sustentada pelo Sagrado Magistério, e na qual devemos acreditar com todas as forças de nossa alma.

Poderíamos dedicar um livro apenas para contar a história dessas grandes batalhas. Porém, nosso intuito com estas linhas é de apresentar – e apenas isso – o que a Igreja definiu como dogma sobre a união da natureza humana e da natureza divina na Pessoa do Verbo.

Começamos por explicar que essa união que há entre a natureza humana e a divina não se faz por uma fusão, pois neste caso Jesus não seria nem verdadeiramente homem nem verdadeiramente Deus, mas uma terceira espécie.

Essa união também não se faz pela composição das duas naturezas, pois nesse caso Cristo não seria inteiramente homem nem inteiramente Deus, já que o conceito de composição implica num resultado formado de duas partes, portanto duas porções incompletas, o que é incompatível com a divindade.

Essa união não é meramente moral, ou seja, como acontece com a alma em estado de Graça e a Santíssima Trindade. Embora essa união (moral) seja elevadíssima, não é substancial. Ora, a união das duas naturezas em Nosso Senhor Jesus Cristo é substancial, perfeita e completa.

Na união que há em Jesus Cristo, as duas naturezas permanecem íntegras e distintas. Essa união se realiza numa hipóstase (suporte, do grego) que é a Pessoa do Verbo. Tratando-se de um mistério estritamente sobrenatural, a razão humana não pode demonstrar sua existência, mas uma vez revelado por Deus, pode demonstrar que não há nada que seja contrário à razão.

Mas qual a necessidade de uma doutrina tão rígida? Nosso Senhor não veio para salvar a humanidade do pecado? Porque essas discussões a respeito de aspectos tão teóricos? As consequências de um erro nessa doutrina seriam catastróficas.

Vamos imaginar que, por um absurdo, um habitante da China fosse para as Filipinas e matasse, sem motivo algum, o presidente do país e desaparecesse. Seria necessário que a China enviasse um representante de seu país, uma grande personalidade, para se desculpar com os filipinos e reparar de alguma forma a ofensa cometida. Agora, suponhamos que ao invés de mandar um chinês, a China mandasse um australiano. Teria sentido essa atitude? Claro que não! Mas porque? Quando um povo precisa fazer alguma reparação perante outra nação, só pode enviar um representante que seja sangue do seu sangue.

Assim também, para reparar o pecado que a humanidade cometeu na pessoa de Adão, só um homem, com todas as condições humanas, poderia representar a humanidade diante de Deus. Por isso, Jesus tinha que ser verdadeira e inteiramente homem.

Porém, como o Ofendido é um Ser infinito, a reparação também precisava ter um valor infinito. Ora, só o próprio Deus é capaz de um ato de valor infinito. Logo, Jesus precisava ser verdadeira e inteiramente Deus.

Portanto, qualquer equívoco nessa doutrina implicaria em afirmar que Jesus não é o Salvador da humanidade, e que a Redenção é uma quimera.

Jesus pagou um preço muito alto, oferecendo-Se a Si mesmo na Cruz como holocausto por nosso pecados. Quando Abraão levantou o cutelo para sacrificar Isaac, Deus segurou sua mão. Porém, não poupou seu próprio Filho, imolado no Gólgota por amor dos homens.

 

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Para quem quiser se aprofundar mais no assunto indicamos a seguinte obra:

ROYO MARÍN, Antonio. Jesucristo y la Vida Cristiana. Madrid: B.A.C., 1961, p. 61-153.

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