O Ciclo Pascal: a data da Páscoa
Representação do Sistema Solar (foto: Dmitry Boyarin / Flickr)

O Ciclo Pascal: a data da Páscoa

Poderíamos considerar o Ano Litúrgico como uma magnífica catedral medieval, a qual levou séculos para ser construída. Com efeito, tais construções às vezes demoravam duas ou três gerações para serem terminadas, e com frequência os avós colocavam os alicerces e os netos participavam da celebração da Missa inaugural. Assim também aconteceu com a “construção” do Ano Litúrgico, o qual nasceu paulatinamente, brotando do afervoramento da piedade cristã.

E como soe acontecer em algumas construções, por determinadas circunstâncias, certos cômodos são construídos primeiro e só depois é que se levantam os demais. Não foi diferente o que aconteceu com o Ano Litúrgico. A primeira e mais antiga “sala” desta construção foi a Páscoa, celebrada desde os tempos apostólicos.[1]

Suas raízes se fundam na Páscoa judaica, a Pesach (passagem), na qual o Povo Eleito celebra a saída do Egito e a passagem pelo Mar Vermelho a pé enxuto. Depois de séculos de penosa e cruel escravidão, o Senhor olhou com misericórdia para seu povo e enviou seu servo, Moisés, para libertar a raça de Israel da tirania do faraó.

Depois de ter instigado e coagido o soberano a libertar o povo judeu, através de nove pragas, sem nenhum resultado, Javeh determinou que os filhos de Abraão deveriam sacrificar um cordeiro no dia 14 daquele mês, que era o mês do mês de Nisan. E depois de assá-lo e comê-lo, com os rins cingidos e com cajado na mão, deveriam untar os batentes das portas com o sangue do cordeiro. Naquela mesma noite o Senhor passou pela terra do Egito ferindo todos os primogênitos, desde homens até animais, mas nas casas em que encontrou o sangue do cordeiro passou adiante. Depois Deus ordenou que os filhos de Israel celebrassem através da gerações essa data imemorial. (Cf. Ex 12, 1ss)

Para os católicos, o cordeiro é símbolo de Nosso Senhor Jesus Cristo, O qual deixou-Se imolar para nos livrar da escravidão do pecado e da tirania do demônio. E para deixar patente que Ele era o verdadeiro Cordeiro, ressuscitou no dia da Páscoa, deixando patente que a Pesach foi mera prefigura, um preparação para uma realidade muito maior que era sua vitória sobre o pecado e a morte. Com sua ressurreição, Cristo destruiu as portas do inferno e passou a ser o penhor de nossa própria ressurreição futura.

Por isso, desde os primórdios da cristandade, a Páscoa teve papel fundamental na vida da Igreja. Existem registros de que até o século II os cristãos celebravam a Páscoa no dia 14 de Nisan do calendário judaico, mesma data da Pesach. O que é bastante natural, pois provindos do judaísmo os primeiros cristãos tinham a tendência de continuar celebrando as festas judaicas dentro da religião católica, e de modo mais acentuado a Páscoa, embora já lhe atribuíssem um sentido diferente. Contudo, aos poucos começaram a mudar a data da celebração para o domingo seguinte ao 14 de Nisan para diferenciar as duas festas, pois passaram a ver a celebração da Ressurreição de Jesus como independente da Pesach, como uma nova celebração ligada exclusivamente à sua Ressurreição.

Durante um período houve discussões sobre a data em que a Páscoa deveria ser celebrada, uns queriam mantar-se ligados à Pesach e celebrá-la no dia 14 de Nisan, outros queriam se desvincular das tradições judaicas e fazer a celebração da Páscoa no domingo, dia em que Cristo ressurgiu dos mortos. Foi só em 325, no concílio de Nicéia, que ficou definido que a Páscoa deveria ser celebrada no domingo posterior a 14 de Nisan, o que é equivalente ao domingo posterior à primeira lua cheia do equinócio da Primavera (no hemisfério norte).

Na verdade, o cálculo para determinar o dia da Páscoa é um pouco complexo. Em primeiro lugar devemos levar em consideração que o Calendário Gregoriano (atualmente em vigor) é baseado no movimento do Sol, e a data da Páscoa é influenciada pelo movimento da Lua. Nem sempre é fácil conjugar todos os fatores… Seria demasiado exaustivo e inoportuno fazer um aprofundamento astronômico nesse artigo.[2] Vamos apenas tentar explicar de um modo simples e claro como são conciliados todos esses elementos.

O primeiro fator a ser levado em consideração para calcular o dia da Páscoa é o equinócio vernal (primavera no hemisfério norte e outono no hemisfério sul). Por causa da inclinação da terra em relação ao Sol temos as quatro estações do ano. Cada uma tem dia e hora para começar e terminar. Em duas dessas estações temos o fenômeno do solstício, numa delas temos o maior dia do ano (verão), e na outra temos a maior noite do ano (inverno). Nas outras duas estações temos o fenômeno do equinócio, nos quais o dia e a noite tem exatamente a mesma duração, um acontece no início da primavera e outro no início do outono. Esses dois últimos acontecem de modo invertido entre os hemisférios norte e sul. Quando se inicia a primavera no hemisfério norte, começa o outono no hemisfério sul, e vice-versa.

A data da Páscoa depende da data do equinócio chamado vernal (quando é primavera no hemisfério norte e outono no sul), o que acontece no dia 21 de março, salvo alguma rara exceção em que esse dia pode ocorrer em 19 ou 20 de março. Ora, o movimento da Lua é independente do movimento do Sol, por isso suas fases acontecem em dias diferentes a cada ano. E o dia em que se deve celebrar a Páscoa é o domingo seguinte à primeira lua cheia que acontece depois do equinócio vernal. Ou seja, quando acontece o equinócio deve-se esperar a próxima lua cheia e no domingo seguinte a ela celebrar a Páscoa.

Mas porque tanta exigência em que a data da Páscoa fosse escolhida de modo tão complexo? A Igreja Católica é muito zelosa no que diz respeito aos símbolos, e no caso concreto da Páscoa procurou fazer coincidir sua celebração no dia em que a configuração dos astros fosse a mais parecida com o dia da Ressurreição de Cristo, dia da Pesach, que Ele mesmo escolhera para manifestar aos homens sua divindade, conservando assim a sua própria tradição. Como Cristo ressuscitou no domingo e com isso o santificou, a Igreja determinou que tal celebração deveria ocorrer no domingo.

No próximo artigo (veja aqui) trataremos sobre como surgiu a celebração da Quaresma e demais festas que acontecem com base na celebração da Páscoa, e a relação que cada uma tem com ela, encerrando assim a parte histórica do Ciclo Pascal, para depois podermos contemplar o significado profundo de cada gesto e de cada rito litúrgico desta celebração.

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[1] Muitos autores, contudo, sustentam que a celebração anual da Páscoa só teve início no século II, e que até esse período só existia a celebração semanal, a cada domingo, da Ressurreição de Cristo.

[2] Não é nossa intenção esgotar o tema sobre a história e o desenvolvimento da celebração da Páscoa, nem nos aprofundarmos no complexo movimento dos astros, mas tão somente dar ao leitor uma visão geral e facilitar a compreensão de como ela é celebrada em nossos dias. Para um maior aprofundamento ver: José Abad Ibañez – Manuel Garrido. Iniciación a la liturgia de la Iglesia. 2. ed. Madrid: Palabra, 1988, p. 689ss; Julián Lopez Martíns. La Liturgia de la Iglesia: teología, historia, espiritualidad y pastoral. 2. ed. Madrid: BAC, 1996, p. 229ss.

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