O que é o Ano Litúrgico?
Nebulosa Carina, formação de estrelas massivas nos céus do sul (foto: European Southern Observatory / Flickr)

O que é o Ano Litúrgico?

Uma das coisas que mais manifesta a beleza e a perfeição do mundo criado é o movimento harmônico dos astros. A incrível congruência de um número tão grande de elementos deixa fascinado qualquer observador. Como se tal sincronia não bastasse, sabemos que a relação de causa e efeito liga de tal forma uns aos outros que só mesmo uma inteligência infinita poderia compor um cenário tão magnífico!

Podemos ter uma ideia mais precisa disso analisando o movimento de nosso planeta. Com efeito, a translação da Terra em relação ao Sol faz com que cada época do ano tenha características próprias: é o que chamamos de estações do ano. Há lugares onde elas se fazem sentir de forma mais pontual e categórica. Ali o inverno traz consigo o frio e a neve, cobrindo com um casto manto a paisagem; as noites são mais longas que os dias por causa da inclinação da Terra. Em seguida, a neve derrete e irriga a vegetação, que recobra seu colorido, os pássaros cantam e as flores desabrocham: é a primavera. Já o verão é marcado pelo calor intenso, seus dias são mais longos que as noites. Depois chega o outono, as flores adquirem um rubro vivo ou um dourado suave; os dias e as noites tem igual duração, pois o Sol está na mesma linha do Equador.

Porém, esse ciclo das estações é apenas imagem de uma realidade sobrenatural muito maior, que está contida nos tesouros da Igreja Católica: o Ano Litúrgico.

Assim como as estações do ano favorecem o desenvolvimento de toda vida material, assim a Igreja Católica quer, através do Ano Litúrgico, fazer desenvolver a vida sobrenatural nas almas de seus membros. Mas o que é propriamente o Ano Litúrgico?

Sabemos que Cristo veio à terra para realizar a Obra da Salvação. Sim, depois do pecado de Adão e Eva as portas do Paraíso foram fechadas para a humanidade. E só mesmo um sacrifício infinito poderia reparar a dignidade de um Ser infinito que foi ofendido. Nenhum outro sacrifício seria suficiente para satisfazer a justiça divina lesada pelo orgulho da criatura.

Assim, a única forma de redenção era que alguém oferecesse um sacrifício que atingisse os páramos do infinito. Por isso foi necessária a Encarnação do Verbo, e mais do que isso, sua imolação completa: o sacrifício da Cruz. Nosso Senhor Jesus Cristo não hesitou em oferecer ao Pai, pelos pecadores, tão doloroso e completo sacrifício. Não apenas o aceitou como o desejou ardentemente. (cf. Jo 17, 1-26) Após a consumação de seu oferecimento como vítima, ao terceiro dia, Cristo ressurgiu dos mortos por sua própria virtude, e tendo dado provas disso subiu ao Céus.[1]

Porém, em sua misericórdia sem limites, Ele não abandonou a humanidade subindo ao Céu, mas antes de sua partida fundou uma Instituição e confiou a Ela tesouros divinos, e A encarregou de distribuí-los aos homens, a fim de que eles pudessem se beneficiar dos méritos de sua Paixão. Entre esses tesouros encontramos os sete sacramentos, instituídos pelo próprio Cristo com vistas à infusão e o desenvolvimento da vida divina nas almas. E entre eles o maior de todos que é a Eucaristia.

Aos Apóstolos e a todo ministro ordenado foi concedido o dom de consagrar o pão e o vinho, transubstanciando-os no Corpo, Sangue, Alma e Divindade do próprio Jesus, tal como Ele o realizou no Cenáculo momentos antes de sua Paixão. Esse verdadeiro milagre se realiza dentro da celebração eucarística, a Missa.

Porém, muitos pensam – ao menos subconscientemente – que a Missa é uma representação, ou uma simples comemoração da Última Ceia. Muito mais do que isso, cada Missa é a renovação incruenta do próprio sacrifício da Cruz, com todos os seus méritos e todas as suas graças! Ter estado presente no Gólgota e assistido à Paixão ou assistir a uma Missa numa pequena capela é, substancialmente, a mesma realidade.

Para facilitar a que os fiéis dessem o devido valor a tão sublime sacramento, a Santa Igreja dispôs, em sua sabedoria, que tal celebração fosse involucrada nos fatos da vida de seu Divino Fundador, considerando-os ao longo do ano. Por isso, comemoramos o Natal, a Páscoa e todas as outras festas. Eis o cerne do Ano Litúrgico.

É a forma que a Igreja encontrou para santificar o tempo, como que batizar o tempo, dando-lhe caráter sagrado e fornecendo os elementos para a santificação dos fieis. Apesar de não constituir propriamente um sacramento, o Ano Litúrgico possui “uma peculiar força para alimentar a vida cristã”,[2] já que encontramos nele dois elementos fundamentais: 1o Deus se manifesta, sai de sua eternidade e entra em nosso tempo, enchendo-o de graça com sua presença, purificando-o e santificando-o; 2o o divino e o humano, o tempo e a eternidade, a Igreja Triunfante e a Peregrina se encontram numa mesma celebração.

O Ano Litúrgico possui uma vida própria. Assim como as estações do ano constituem um ciclo, o qual se repete a cada ano, assim também existe o Ciclo Litúrgico. Esse ciclo é constituído por dois grandes blocos: o Ciclo do Natal e o Ciclo da Páscoa. Mas é em função do segundo que todas as outras festas se encaixam formando um magnífico vitral. Se no Natal comemora-se o nascimento de Jesus, na Páscoa comemoramos sua vitória sobre o pecado e morte,[3] seu triunfo sobre o Céu e a terra, a nossa redenção.

Nos próximos artigos desta seção trataremos de cada detalhe do Ano Litúrgico, como ele se encaixa na contagem civil dos dias, como ele surgiu, suas modificações ao longo da história da Igreja e como ele é celebrado em nossos dias. Explicaremos cada uma das celebrações, especialmente o Tríduo Pascal. Convidamos o leitor a nos acompanhar na consideração dessa obra prima que é o Ano Litúrgico, tão divino que não nos parece exagerado afirmar que é um antegozo do Céu.

 

[1] Cf. São Tomás de Aquino. Exposição sobre o Credo. Trad. Odilão Moura. 4. ed. São Paulo: Loyola, 1981, p. 55.

[2] Sagrada Congregação de Ritos. Decreto Geral Maxima Redemptionis Nostrae Mysteria, de 16 de novembro de 1955. In: ASS 47 (1955), p. 839.

[3] O tema da vitória de Cristo sobre o pecado e a morte está muito presente no discurso de São Paulo, em várias de suas epístolas. Mencionamos uma das principais: 1 Cor 15, 55-56. Também na cerimônia de Sábado Santo existe uma acentuada nota sobre esse aspecto.

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