O que Jesus fez nos trinta anos que viveu em Nazaré?
Jesus entre os Doutores da Lei, igreja de São João Batista em Newcastle (foto: Lawrence, OP / Flickr)

O que Jesus fez nos trinta anos que viveu em Nazaré?

Até a consumação dos séculos, não haverá aos olhos da humanidade figura tão considerada quanto a de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Seja por aqueles que se voltam devotamente a seus ensinamentos, no filial seguimento de seus passos, e na amorosa entrega à sua Igreja; seja pelos que procuram combater sua doutrina, destruir sua Obra e pôr em esquecimento sua Divina Pessoa, Cristo Nosso Senhor estará sempre posto no cerne de toda História.

Contudo, deste Homem posto no eixo de todo Universo pouco se sabe. De fato, considerando o Evangelho, a piedade católica de todos os tempos depara-se com uma grande incógnita: dos trinta e três anos de sua existência nesta terra, foram consignados para a posteridade somente os ensinamentos e exemplos realizados por Ele diante de seus discípulos, durante os três anos de sua vida pública, os seus últimos três anos de vida.

Os Evangelhos, luz perene para os fiéis de todos os tempos, nada relatam da vida de Jesus, compartilhada com Maria e José na cidade de Nazaré. Poucos são os fatos conhecidos nesse período: a fuga para o Egito, logo após seu nascimento, e a perda do Menino Jesus no Templo, aos 12 anos de idade.

Após narrar estes episódios, o Evangelista resume todo o período da vida oculta de Jesus numa simples frase: “Em seguida, desceu com eles a Nazaré e lhes era submisso.” (Lc 2, 51)

O que fez Jesus durante todos esses anos em Nazaré? Quais eram suas ocupações? Terá Ele frequentado escola? Teve amigos? Sobretudo, qual era a principal tarefa que O levava a viver entre os homens, sem, contudo, se manifestar como verdadeiro Deus?

Estas, e muitas outras perguntas, vêm sido planteadas pela piedade dos fiéis, desde os primórdios do cristianismo. Tem elas alguma resposta?…

Com base nos fragmentos dos Evangelhos, podemos compor alguns aspectos da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo em Nazaré. No início de sua vida pública, vê-se que Nosso Senhor era conhecido como: Jesus de Nazaré, filho de José (cf. Jo 1, 45; Lc 4, 22). E quando está na sinagoga de Nazaré, os judeus se perguntam: Não é este o filho do carpinteiro? (cf. Mt 13, 55). Ora, São José ensinou este ofício a seu filho Jesus, que em Nazaré também era conhecido como filho de Maria. (cf. Mc 6, 3)

Portanto pode-se crer, com base nas próprias palavras da Escritura, que um dos afazeres de Jesus, durante estes trinta anos ocultos, era auxiliar seu pai São José com trabalhos de carpintaria, quando não os fazia por si mesmo. Belo ensinamento de humildade, despretensão e serviço aos pais. O Verbo eterno de Deus, que com um só ato de vontade tudo poderia criar, trabalha com suas mãos.

Na casa de Nazaré o Primeiro faz-se último, e o inferior é posto acima de todos. Jesus, Verdadeiro Deus, obedece a seus pais, criados por Ele mesmo. Maria, Senhora e Rainha dos Anjos, Medianeira Universal de todas as graças, contudo, mera criatura, ensina e educa o próprio Deus, porém obedece a seu esposo, posto incomensuravelmente abaixo de si. E São José, dentre os três, o menor, dá ordens e conselhos à Sabedoria eterna e encarnada. Jesus “era-lhes submisso”.

Porém, o Verbo-Encarnado, que vindo à terra quis assumir uma “condição semelhante à nossa, exceto no pecado” (cf. Hb. 4, 15), a fim de ser um exemplo para nós em tudo (cf. 1Pd. 2, 21), não submeteu-Se a todas as regras da contingência humana.

Lê-se no Evangelho de São João: Os judeus se admiravam e diziam: Este homem não fez estudos. Donde lhe vem, pois, este conhecimento das Escrituras?” (Jo 7, 15)

Acaso Nosso Senhor Jesus Cristo quis, assim, insinuar aos jovens que não precisam submeter-se às disciplinas e ao ensino? Por certo que não. Todos os fatos da vida de Nosso Senhor devem ser contemplados levando em consideração seu desejo de fazer o bem a todos, e desta forma, salvá-los. Se Ele, na infância, frequentasse escola, ao chegar à maturidade e começar a desempenhar seu ensinamento público, facilmente alguns, em especial os fariseus, julgariam que aqueles ensinamentos provinham de seu mestre, e não Lhe dariam crédito. Mas, “a minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou” (Jo 7, 16), dizia-lhes o Senhor.

Resta-nos, porém, dar alguma resposta à mais intrigante das questões acima levantadas: qual era a principal tarefa que levava Nosso Senhor Jesus Cristo a viver entre os homens durante trinta anos, sem, contudo, se manifestar como verdadeiro Deus?

Dentre todos os seres criados, aqueles que mais refletem a Deus são os dotados de inteligência: Anjos e homens. Destes, aos que mais amou, Deus cumulou de maiores e mais excelsos dons e privilégios. Não há portanto criatura alguma, mais amada e querida por Deus, que Maria Santíssima, única dotada de todos os privilégios em sumo e inigualável grau. Por sua extrema união com o Verbo-Encarnado, Ela foi posta acima de todos os seres, como Rainha e Senhora dos Anjos.

Devido à esta augusta condição, não caberia jamais que lhe fosse dado por esposo alguém desproporcional à sua sublimíssima elevação. É forçoso, portanto, conceber que, depois de Maria Santíssima, São José ocupa lugar preeminente aos olhos de Deus.

Em função desse amor de Deus por este diletíssimo e santo casal, objeto de inigualável predileção e amor por parte das Pessoas divinas, Deus concedeu o que de mais excelso poderia haver sobre a face da terra: Cristo Jesus. E foi só a ambos, e para sua santificação, que Ele reservou os trinta anos de sua vida em Nazaré.

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