Os Anjos falam?
Os Anjos na visão beatífica, por Gustavo Doré.

Os Anjos falam?

A existência dos Anjos nunca foi motivo de dúvida, mesmo no Antigo Testamento, pelas pessoas que tinham Fé nas Sagradas Escrituras. Quase a cada página eles estão presentes intervindo nos acontecimentos, cumprindo alguma ordem divina ou simplesmente auxiliando os homens.[1] No Novo Testamento essa crença se torna ainda mais vigorosa.

Com efeito, a doutrina católica ensina que Deus designa um Anjo para guardar cada homem desde o instante de seu nascimento. Esse Anjo não terá outra pessoa a quem proteger durante toda a história da humanidade, mesmo depois da morte do seu protegido. Estes celestes guardiões nos amparam permanentemente em nossa peregrinação terrena.[2]

Contudo, conversar com o próprio Anjo da Guarda, como quem fala com um amigo íntimo ou um irmão, é um fato extraordinário, que raras vezes acontece. Mas, os Anjos comunicam-se conosco, por meio de uma linguagem que não é de palavras, e com mais frequência do que se pensa.

E de alguma maneira, sempre estamos nos relacionando com o nosso Anjo, e, sobretudo, ele conosco. Mas como se dá essa comunicação se ele não possui corpo material, e, portanto, não tem boca nem língua? Como os Anjos conversam?

O grande São Tomás de Aquino nos explica que os Anjos podem se comunicar de duas maneiras diferentes, tanto com os homens quanto entre si: uma é a iluminação e outra é a simples locução.

A iluminação é o ato pelo qual se manifesta uma verdade.[3] Assim se diz que um Anjo ilumina outro quando lhe manifesta uma verdade que conhece e que lhe foi revelada por Deus e que o outro Anjo desconhece ou conhece em grau menor. Esta iluminação é concedida por Deus a todos os Anjos, mas nem todos a recebem – ou aproveitam – de igual modo.[4] Isto, entretanto, não se deve a uma deficiência do modo pelo qual Deus os ilumina, mas porque a capacidade de apreender é maior para uns e menor para outros.

O Anjo superior tem uma capacidade maior de apreender as verdades sobrenaturais, então para que o Anjo inferior possa entender aquilo que o Anjo superior quer lhe transmitir é necessário que o Anjo superior fragmente seu conhecimento. O exemplo que o próprio São Tomás dá para esta teoria é de um professor que tem um conhecimento muito amplo da matéria que leciona e que ao apresentá-la aos alunos divide-a em partes coerentes e ordenadas, de modo que os alunos possam entendê-la. Evidentemente, os alunos terão um conhecimento da matéria muito inferior em relação ao do professor, portanto menos perfeito. Algo semelhante se passa com os Anjos.[5]

Esta forma de comunicação só se dá da parte dos Anjos superiores para com os Anjos inferiores, mas existe a outra forma de comunicação, que é a simples locução, na qual também os Anjos inferiores “falam” aos superiores. São Tomás explica que a locução tem por finalidade manifestar algo desconhecido àquele com quem se fala ou pedir-lhe alguma coisa.[6]

A locução se distingue da iluminação, porque a iluminação se refere às verdades que procedem de Deus […]. A locução tem por objeto a revelação daqueles conhecimentos que dependem da vontade do comunicante e que São Tomás denomina “segredos do coração”. Não são verdades essenciais; são dados da própria consciência pessoal, cuja manifestação está debaixo do selo da própria vontade. Daí a liberdade característica de tal comunicação da intimidade[7].

Evidentemente, a comunicação dos Anjos uns com os outros não se expressa com sons, palavras ou outro elemento material, pois sua natureza é puramente espiritual. A sua comunicação corresponde a um ato de vontade de que outros Anjos conheçam ou compreendam conceitos que possuem e que conservam ocultos, e podem inclusive dar a conhecer a uns e não a outros, conforme sua vontade.[8] Assim, os Anjos falam também a Deus, perguntando-Lhe coisas, pedindo esclarecimentos, louvando-O e glorificando-O.[9]

Isso que no Anjo é co-natural, no homem pode se dar pela graça. Um Anjo superior pelo simples fato de voltar-se para o inferior já lhe amplia a capacidade cognoscitiva.[10] Nós poderíamos sentar ao lado de São Tomás de Aquino durante uma semana que provavelmente não ficaríamos mais inteligentes, mas por uma graça de Deus poderíamos ficar. O exemplo prototípico disso é o cumprimento de Nossa Senhora a sua prima Santa Isabel. Maria provavelmente não deu uma aula de filosofia à sua prima, mas o simples fato de Ela ser quem é e estar ali, de fazer ouvir sua voz, foi o suficiente para que Santa Isabel percebesse estar ali a Mãe do Messias e para santificar São João Batista no claustro materno.

É sem dúvida essa “iluminação” que nos move a querermos estar próximos das pessoas de quem gostamos, pois sentimos que alguma coisa nos eleva e nos atrai.

E sobre o que conversam os Anjos? Evidentemente, o principal objeto da conversa angélica é Deus, pois toda criatura tende naturalmente a voltar-se para o Criador, sobretudo em se tratando de criaturas tão perfeitas como são os Anjos, além de estarem na Visão Beatífica, sempre vendo aspectos novos de Deus durante toda a eternidade, pois sendo Deus infinito, por mais que eles vejam a Deus no seu todo, não O vêem totalmente, o que é impossível a qualquer criatura.

Mas, podemos concluir disso que um dos temas sobre os quais os Anjos conversam é a intervenção de Deus na Obra da Criação, ora o elemento mais importante da criação é o homem. Em última análise os Anjos conversam sobre a ação de Deus na história da humanidade.[11] A respeito da criação os Anjos superiores comunicam aos inferiores tudo o que vêem em Deus.

Poderíamos imaginar inclusive uma conversa angélica na qual os nossos Anjos da Guarda perguntam a algum Anjo mais elevado como compreender melhor o seu protegido, e o Anjo superior explica que sua natureza é constituída de tal maneira e que seria conveniente agir com ele desse ou daquele modo, que Deus tem este ou aquele plano para ele, etc. Enfim, cada um pode imaginar – ou dar-se conta de que já aconteceu – mil circunstâncias em que nossos Anjos da Guarda recorreram a Deus, através dos Anjos superiores, para nos auxiliar.

Portanto, nossos Anjos da Guarda estão muitas vezes conversando sobre nós com os Anjos que lhes são superiores, de maneira que nós fazemos parte de uma “cascata” de Anjos que estão preocupados com cada um de nós, a fim de nos proteger, auxiliar e interceder por nós junto a Deus.

Mas eles não conversam apenas entre si ou com Deus. Também com os homens eles se comunicam. Por uma sublime disposição da Providência Divina, os seres superiores se tornam intermediários entre Deus e os que lhes são inferiores. Assim os Anjos são intermediários entre o Criador e os homens.[12]

Como diz São Tomás, citando São Dionízio, o homem não é capaz de captar um conceito puramente abstrato se não houver em sua mente algo à maneira de um invólucro que sirva de imagem para poder entender. Por isso os Anjos apresentam as verdades que querem transmitir aos homens sob uma aparência sensível a seus sentidos.[13]

Os Anjos, tanto os bons quanto os maus, têm poder sobre a imaginação humana[14], podendo nos inclinar à prática da virtude, dando-nos boas inspirações, sugerindo-nos bons propósitos, podem nos ajudar em nossas tarefas proporcionando-nos boas ideias, enfim, em toda sorte de ações podemos ser profundamente influenciados pelos espíritos angélicos.

Se nós sentimos tantas vezes as insídias diabólicas a combater contra nós, com maior razão estará nosso Anjo da Guarda a combater por nós? Se ele nos permite alguma tribulação, provação ou sofrimento, é apenas para nosso bem, embora possamos não entender no momento.[15] Mas quanto mais nos sentimos abandonados, mais estamos sendo amparados insensivelmente por nosso Santo Anjo da Guarda.

Peçamos, pois, a Deus e a sua Mãe Santíssima uma devoção entranhada aos Anjos, esses gloriosos intercessores celestes, de que muitas vezes esquecemos.

 

 

[1] Citamos algumas passagens da Escritura mais importantes nas quais os Anjos têm papel de destaque: Gn 3, 24; Gn 22, 11; Dn 3, 49-50; Dn 6, 23; Ex 14, 19; Jz 6, 12. 22; 1Cr 21, 7. 15-16; Lc 1, 26-38; Mt 2, 13; Mc 16, 5-7; At 12, 7-11; entre outras.

[2] Cf. AQUINO, São Tomás de. Suma de Teología, I, q. 113; Cf. BASÍLIO, São. Contra Eunômio, Livro 3, n. 1; Cf. ORÍGENES. Comentários ao Evangelho de São Mateus, 5; Cf. JERÔNIMO, São. Commentaire sur Saint Matthieu, Tomo 2, Livro 3, Cap. 18; Cf. Catéchisme du Concile de Trente, Parte 4, Cap. 39, n. 1; Cf. VALBUENA, Jesús. Introdução à questão 113. In: Suma Teológica, BAC, Madrid, 1950, p. 932; Cf. JOÃO XXIII. Discurso do 2 de outubro de 1960; Cf. JOÃO XXIII. Discurso na Basílica de Santa Maria dos Anjos de 9 de setembro de 1962.

[3] Cf. AQUINO, São Tomás de. Suma de Teología, I, q. 106, a. 1, resp.

[4] Cf. Idem., a. 4, resp.

[5] Cf. Idem., a. 1, resp.

[6] Cf. Idem., q. 107, a. 2, resp.

[7] BARRENECHEA, José Maria. Introdução às questões 103 a 119. In: Suma Teológica, 4ª ed., BAC Maior, Madrid, 2001, p. 878.

[8] Cf. AQUINO, São Tomás de. Suma de Teología, I, q. 107, a. 2, resp.

[9] Cf. Idem., a. 3, resp.

[10] Cf. Idem., q. 106, a. 1, resp.

[11] Cf. Idem., q. 113, a. 8, sed contra e resp.

[12] Cf. AQUINO, São Tomás de. Suma de Teología, I, q. 111, a. 1.

[13] Cf. Idem.

[14] Cf. Idem., a. 3.

[15] Cf. Idem., q. 113, a. 6.

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