Qual o efeito que o Batismo produz em nossa alma?

Qual o efeito que o Batismo produz em nossa alma?

Deus quando criou o homem no paraíso terrestre criou-o em graça, ou seja, participante de sua própria vida, tornando-o verdadeiramente seu filho por adoção – somos filhos por participação, acidentalmente e não substancialmente como o é Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas o homem pecou privando-se deste inestimável dom, e passou a ser uma mera criatura, distinguindo-se dos animais apenas por possuir inteligência e por ter uma alma imortal.

Entretanto, Deus teve misericórdia da fragilidade humana, pois sabe de que barro somos feitos, e enviou seu Filho Unigênito para nos resgatar e redimir. Nosso Senhor Jesus Cristo veio à terra, encarnando-Se num corpo em tudo semelhante ao nosso, exceto no pecado. Foi perseguido, sofreu e na Cruz morreu, e ofereceu seu Preciosíssimo Sangue ao Pai Celeste como preço de nosso resgate.

Mas Ele não se limitou a pagar o valor infinito que nos impedia de entrar no Céu abandonando-nos à nossa fraqueza. Ele fundou uma Igreja e deu a esta Igreja o poder de introduzir na vida divina todos os que a desejassem, através do sacramento do Batismo.

Sabemos que apenas Deus é capaz de dar a qualquer um a participação em sua própria vida. Entretanto, em sua sabedoria, quis servir-Se de intermediários: seus ministros e os sacramentos; estes últimos são veículos infalíveis que produzem aquilo que significam; os primeiros, são os instrumentos por Ele determinados para conferirem os sacramentos.

A humanidade santíssima de Nosso Senhor Jesus Cristo é de modo especial um instrumento de Deus para introduzir numa alma a Graça, ou vida divina, pois está intimamente unido à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Como Verbo, sua ação iguala em poder à do Pai, e d’Ele o Espírito Santo recebe em sua natureza incriada o poder de santificar a Igreja. Como homem Ele é instrumento das misericórdias divinas, e seus ministros o são por participação de seus méritos enquanto homem.

Assim, a vida divina nos vem através de Jesus. A humanidade de Cristo é o canal necessário por onde passa a vida divina para todos os membros de seu Corpo Místico, a Igreja. É o próprio Cristo que confere a cada um de nós os sacramentos, através de seus ministros. A Santíssima Trindade não faz nada na alma sem Cristo. O Verbo apoderou-Se desta humanidade e fez dela um instrumento contínuo de sua ação concreta sobre as almas. Se elementos puramente materiais como a água do Batismo, nas mãos de Deus são capazes de se tornar instrumentos da Graça, quanto mais o é a humanidade de Cristo.

Todos os sacramentos foram instituídos por Ele pessoalmente e entregues à Santa Igreja que é agora a divina distribuidora destes dons. Alguns sacramentos Nosso Senhor instituiu de maneira explicita a matéria e a forma, como é o caso do Batismo; outros apenas o sacramento em si, deixando à Igreja o poder de determinar a matéria e a forma, como é o caso da Confirmação.

O sacramento do Batismo é o que nos introduz na vida divina e na Santa Igreja. Sem este não podemos receber nenhum outro sacramento. É Cristo quem batiza; nós precisamos ver em seus ministros visíveis, a Ele invisível. No momento em que Cristo “se inclina” para batizar uma alma, Deus comunica à humanidade de Cristo uma virtude que lhe permite participar de sua ação divinizadora. Deus não nos diviniza a não ser por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo.

O Batismo é um sacramento que apaga o pecado original, nos faz filhos de Deus e da Igreja… O Batismo é a Cruz de Jesus Cristo aplicada sobre nossos ombros… Por meio do Batismo somos crucificados com Jesus Cristo… Mas, a Cruz é a morte e a destruição dos pecados…[1]

A vida trinitária desce às almas por Cristo – “o único mediador entre Deus e os homens”. Na atual economia da nossa redenção, todas as graças fluem do seio do Pai por Jesus. É neste Filho bem-amado, e só n’Ele, que encontramos nossa redenção pelo seu sangue. É “n’Ele que Deus nos predestinou para recebermos a graça da adoção”.(Ef I, 5). É n’Ele pelo Batismo, que recebemos a remissão de nossos pecados, segundo as riquezas de sua graça. Tal é o desejo eterno de Deus: “tudo restaurar em Cristo”. (Ef I, 10).[2]

Pelo Batismo nos tornamos não apenas filhos de Deus, mas membros de Cristo, pois passamos a fazer parte da Igreja, seu Corpo Místico. “O cristão é outro Cristo”, como diz Tertuliano, e acrescenta Philipon, “por uma participação verdadeira, física, especial à graça capital do Verbo Encarnado”.

Se o Batismo nos torna Cristo, também impõe-nos viver e agir como Cristo. “Tudo o que o Verbo Encarnado realizou para nós na ordem da satisfação, da oração e do sacerdócio, devemos realizá-lo em contínua comunhão com Ele”.[3]

Jesus e a Igreja não são dois Cristos, mas um só; não devemos, pois, separar Jesus dos membros de seu Corpo. Um corpo sem cabeça seria um cadáver. “Não somente somos cristãos, mas somos Cristo”.

Quando Cristo ora a seu Pai, oramos com Ele e n’Ele. Como sacerdote Ele ora por nós. Como Chefe, Ele ora conosco e em nós. Como Deus, Ele é invocado por nós. “Somos um em Jesus Cristo”, e é o Batismo que nos introduz nesta unidade. A mesma vida divina circula da cabeça aos membros: tudo é um entre Jesus e os seus. O mistério de Cristo não se completa senão em nós.[4]

É esse um dos efeitos – e provavelmente o mais importante – do sacramento do Batismo.

 

[1] LÁPIDE, Cornélio Á. Tesoros de Cornélio Á Lápide. trad. D. Carlos Soler y Arques. Madrid: 1882, p. 155.

[2] PHILIPON, M. M. Os sacramentos na vida cristã. trad. Ir. Maria da Trindade. Rio de Janeiro: Agir, 1959, p. 39.

[3] Idem, p. 43

[4] Idem, p. 45

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