Qualquer vinho pode ser utilizado para a celebração da Missa?
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Qualquer vinho pode ser utilizado para a celebração da Missa?

Dentre as muitas artes que o homem desenvolveu ao longo da história se destaca uma, já muito antiga: a elaboração do vinho. O processo de vinificação vem sendo aperfeiçoado ao longo dos tempos, em lugares e com métodos diferentes. Alguns procedimentos foram mudando paulatinamente, conferindo sempre melhor sabor ao paladar. Outros, porém, mantêm-se desde há muito com a mesma maneira de ser cultivado.

Alguns elementos são fundamentais para uma boa produção de vinho, tal como o cultivo correto das uvas viníferas, o cuidado do solo e sua localização, as condições climáticas e suas estações, e até mesmo a maceração, fermentação e reserva do líquido requer obediência a certas “regras”. Como podemos ver, é verdadeiramente uma arte, a qual requer estudo, dedicação e… tempo!

Nosso intuito não é fazer de nossos leitores experts em produção de vinho, mas tão somente de explicar qual tipo de vinho pode ser utilizado na celebração da Missa. Mas para isso ficar bem claro, gostaríamos de apresentar de forma sintética e esquemática os principais tipos de vinho e seu processo de elaboração:

Quanto à sua classe, os vinhos são divididos em: os chamados de mesa, o vinho leve, a champanhe, o licoroso e o composto.

Os vinhos de mesa, têm como característica uma graduação alcoólica de 10o a 13o G.L., e por sua vez, podem ser divididos em: finos ou nobres, especiais, comuns e frisantes ou gaseificados.

  • Finos ou Nobres: são os vinhos produzidos apenas de uvas viníferas;
  • Especiais: são os vinhos mistos produzidos de uvas viníferas e uvas híbridas[1] ou americanas;
  • Comuns: são aqueles com características predominantes de variedades híbridas ou americanas;
  • Frisantes ou Gaseificados: são os de mesa, mas com gaseificação mínima de 0,5 atmosferas e máxima de 2 atmosferas.

O vinho leve, possui graduação alcoólica de 7° a 9,9° G.L. Sua elaboração é feita a partir de uvas viníferas.

A champanha, por sua vez é o vinho espumante, cujo Anidrido Carbônico seja resultante unicamente de uma segunda fermentação alcoólica de vinho com graduação alcoólica de 10° a 13° G.L.

O licoroso, é o vinho doce ou seco, com graduação alcoólica de 14° a 18° G.L. Adicionado ou não de álcool potável, mosto concentrado, caramelo e sacarose.

O composto, como o próprio nome sugere, tem graduação alcoólica de 15° a 18° G.L., e é obtido pela adição ao vinho de macerados e/ou concentrados de plantas amargas ou aromáticas, substâncias de origem animal ou mineral, álcool etílico potável e açúcares. São o vermute, o quinado, o gemado, a jurubeba, a ferroquina e outros.

Quanto à cor, os vinhos são divididos em: tinto, rosado e branco.

O tinto, é elaborado a partir de uma grande diversidade de uvas tintas. A diferença de tonalidade depende de tipo de fruto e sua maturidade. Seu tom forte se deve a que sua fermentação é feita sem tirar a casca das uvas.

O rosado também é originado de uvas tintas, porém após breve contato, as cascas são separadas. Também pode ser obtido um vinho rosado pelo corte, ou seja, pela mistura de um vinho branco com um vinho tinto.

O branco, ao contrário do que muitos pensam, pode ser produzido a partir de uvas brancas ou tintas, a fermentação é feita com a ausência das cascas, por isso sua coloração é branca, e não pelo tipo de uva.

Mas ainda falta um ponto importante: o teor de açúcar, que faz um vinho ser: seco, meio doce, suave:

  • O seco possui até 5 gramas de açúcar por litro;
  • O meio doce possui de 5 gramas a 20 gramas de açúcar por litro;
  • O suave possui mais de 20 gramas de açúcar por litro.

Como o leitor pode constatar, há uma gama enorme de vinhos. Além dessa classificação feita acima ainda se acresce as diferenças de solo, de clima, do tempo da colheita dos frutos, etc. É um verdadeiro universo, que envolve cultura, tradição, épocas e gostos diversos.

Mas afinal, qual o tipo de vinho que pode ser utilizado na Missa? Apesar de muitos vinhos de Missa poderem ser qualificados como licorosos, não é obrigatório que seja assim. É mais frequente sua escolha apenas porque ele se conserva em bom estado por mais tempo depois de aberto, e como é pequena a quantidade de vinho usado em cada Missa, a garrafa permanece aberta por muito tempo. Mas, por norma, o que define o vinho próprio para a Missa são os preceitos adoptados na sua elaboração e os seus componentes.

De acordo com o Código de Direito Canônico “o vinho deve ser natural, do fruto da uva e não deteriorado”. (CIC 924 §3)

Já a Instrução Redemptionis Sacramentum[2], fazendo menção ao texto de Lucas 22, 18, é ainda mais clara e explícita: “O vinho que se utiliza na celebração do santo Sacrifício eucarístico deve ser natural, do fruto da videira, puro e dentro da validade, sem mistura de substâncias estranhas”. (Redemptionis Sacramentum §50)

Com essas duas referências acima mencionadas fica fácil descobrir que tipo de vinho pode ou não ser utilizado na celebração eucarística: não importa a cor e não importa o teor de açúcar, o fator que determina é o fruto utilizado e a forma de sua elaboração. Ou seja, os vinhos produzidos apenas com uvas, sem acréscimo de nenhum outro elemento, com apenas o processo de fermentação natural, o que exclui a champanhe, os frisantes e os vinhos compostos. Mas os demais vinhos, mesmo aqueles que recebem adição de álcool proveniente do próprio vinho, podem ser utilizados, por exemplo os vinhos licorosos.

É o que afirma o Pe. Jesús Hortal, SJ, no comentário ao cân. 924 §3 do Código de Direito Canônico: “Permite-se, porém, a adição de álcool destilado do próprio vinho a fim de aumentar-lhe a graduação alcoólica e evitar assim a rápida corrupção. Também não há inconveniente em que ao vinho se tenham adicionado quantidades muito pequenas de certos produtos químicos comumente usados para purificá-lo”.

Além disso, o experiente canonista ainda acrescenta: “a Congregação para a Doutrina da Fé concede, em casos de necessidade, indulto para poder celebrar a Missa com mosto, quer dizer, com suco de uva sem fermentar. Assim faz, por exemplo, no caso de sacerdotes que, por alcoolismo ou outra doença, não podem tomar vinho”. Cabe ressaltar que é indispensável uma autorização para cada caso concreto, o que é concedido ao sacerdote pelo seu Ordinário ou pelo Bispo Diocesano.

Mas qual é o motivo de tal exigência? A Missa é para o católico o cerne de sua vida religiosa, de sua comunicação com Deus. Nela, às palavras da Consagração pronunciadas pelo sacerdote, o pão e o vinho dão lugar ao Corpo, Sangue e Alma de Nosso Senhor Jesus Cristo. Jesus se faz presente na Hóstia e se oferece como alimento. Vem habitar a morada de nossa alma e santificá-la. É um momento solene e sagrado, e como tal deve estar cercado de toda reverência possível, e nada pode desdourar seu caráter divino.

[1] Uvas híbridas são o resultado do cruzamento entre videiras de famílias e origens diferentes. Cf. SOUZA, Sérgio Inglez de. Vinho tinto: o prazer é todo seu. São Paulo: Marco Zero, 2005, p. 12.

[2] Texto elaborado pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos que trata sobre algumas coisas que se devem observar e evitar acerca da Santíssima Eucaristia.

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