Tríduo Pascal I – Quinta-Feira Santa
Última Ceia, por Fra Angélico (foto: Context Travel / Flickr)

Tríduo Pascal I – Quinta-Feira Santa

O Tríduo Pascal é o cerne de toda vida litúrgica da Igreja. Ele é iniciado com a Quinta-Feira Santa, na qual se celebram três grandes mistérios: a instituição da Eucaristia, a instituição do Sacerdócio e o amor fraterno.

Essa celebração remonta ao ano de 380, aproximadamente. No concílio de Cartago, em 397, a festa já tinha recebido o nome “In Coena Domini” (A Ceia do Senhor), o qual permanece até nossos dias na Liturgia Romana. Desde essa época até finais do século VII a Quaresma era encerrada com a “Missa da reconciliação dos penitentes”, sempre realizada na manhã da Quinta-Feira, para aqueles que estavam terminando sua penitência pública e retornando ao seio da Igreja. Tal costume deixou de existir no século VIII, quando os rigores deram lugar à brandura e compaixão da Mãe Igreja.

Em seu lugar passou-se a celebrar a Missa Crismal, na qual o Bispo acompanhado de todo o seu presbitério (clero diocesano) celebram a Eucaristia e se abençoa o óleo santo e se consagra o Crisma. Essa celebração se enquadra ainda na Quaresma.

A instituição da Sagrada Eucaristia é um dos momentos mais importantes da história de Nosso Senhor Jesus Cristo, de sua Igreja e, porque não o dizer, de toda a humanidade. “Estarei convosco até a consumação dos séculos.” (Mt 28, 20) De fato, o que seria dos homens se Ele não tivesse permanecido na Terra. Sua presença sobre esse vale de lágrimas atenuou o castigo que Deus impusera a Adão e a sua descendência. Mais do que isso, trouxe uma tão grande torrente de graças que seria impossível ficar sem sua adorável presença.

As palavras da oração do dia o expressam de modo assaz eloquente: “Senhor nosso Deus, que nos reunistes para celebrar a Ceia santíssima em que o vosso Filho Unigênito, antes de Se entregar à morte, confiou à Igreja o sacrifício da nova e eterna aliança, fazei que recebamos, neste sagrado banquete do seu amor, a plenitude da caridade e da vida.” (Missal Romano, Missa Vespertina da Ceia do Senhor, p. 145)

Com efeito, a Eucaristia substitui e supera o sacrifício da Antiga Aliança. Ela sela a Nova Aliança, definitiva e perfeita, de Deus com os homens através de seu Filho. À Igreja Católica foi confiado o poder celebrar e atualizar permanentemente essa Aliança, tornando possível aos homens de todas as gerações entrarem em comunhão com Deus, participando sacramentalmente do Sacrifício de Jesus Cristo.

Um dos ritos mais salientes da celebração da Ceia do Senhor é o “Lava pés”. Sua finalidade é catequisar através do exemplo sobre o novo mandamento: a caridade. Foi o que ensinou o Divino Mestre quando lavou os pés aos seus apóstolos. Ele é realizado depois da homilia entre cantos compostos de passagens bíblicas alusivas à caridade fraterna.

A celebração da Quinta-Feira Santa é concluída com a reserva do Santíssimo Sacramento no “Monumento”. Do que se trata? Na Sexta-Feira Santa não há Missa, e por isso é preciso que sejam reservadas espécies eucarísticas suficientes para que os fieis possam comungar durante a cerimônia. A Igreja então transformou essa necessidade em ato litúrgico, estabelecendo que nessa noite, em memória da prisão de Jesus a qual se deu na quinta-feira à noite logo depois de instituir a Eucaristia, o Santíssimo Sacramento ficasse como quê “preso” num outro lugar contíguo à Igreja. A partir do século XI esse translado foi sendo cada vez mais solenizado, e atualmente o local onde o monumento permanece é repleto de flores e lindas velas.

Toda a celebração desse dia tem um caráter solene, alternando entre o júbilo e uma profunda tristeza. Júbilo pela instituição de tão Sublime Sacramento; triste por que nesse dia Jesus foi traído com um ósculo por seu próprio discípulo e entregue aos seus inimigos para ser morto, por trinta moedas. Por causa desse ósculo maldito a Igreja manda suprimir o ósculo do sacerdote sobre o altar no fim da celebração. O cântico do Glória se faz presente e os sinos repicam até o momento da Consagração, após o qual dão lugar às matracas (instrumento composto de madeira e ferro para fazer soar um som agudo e seco, simbolizando o luto). A celebração termina com a luz bem diminuída, para favorecer aos fieis o recolhimento apropriado e já colocá-los numa impostação de espírito adequada à Sexta-Feira Santa, assunto de nosso próximo artigo.

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