Tríduo Pascal II – Sexta-Feira Santa
Cristo nos braços de sua Mãe após sua Morte. (Foto: Wikiart)

Tríduo Pascal II – Sexta-Feira Santa

“Crucifica-O, crucifica-O!”, bradava o populacho judeu. Quem seria o homem perverso a quem eles queriam castigar com tanto rigor? Era nada mais nada menos, Aquele que havia restituído a vista aos cegos, curado coxos e aleijados, surdos e mudos, que havia ressuscitado mortos, muito mais do que isso, que lhes trouxera o perdão dos pecados, a vida divina e a promessa do céu.

Em seus 3 anos de vida pública Jesus passou pela terra fazendo o bem a todos. Sua fama aumentava a cada dia, a cada novo milagre. Multidões acorriam até Ele na esperança de receber alguma dádiva. Quanto maior a necessidade, maior a compaixão! O auge de seu prestígio deu-se no episódio do Domingo de Ramos, quando o povo aglomerado estendia seus mantos e atiravam ramos à sua passagem, aclamando “Hosana ao Filho de David. Bendito o que vem em nome do Senhor.” (Mt 21, 9) Poucos dias depois, essas mesmas pessoas que O aclamavam, gritavam furiosamente “Crucifica-O, crucifica-O!” (Jo 19, 6)

Ele, calmo e paciente, suportava tudo como Divino Cordeiro, imaculado e sem mancha, que é conduzido ao matadouro. Mas ao mesmo tempo majestoso como um Rei, não cedia ao medo da dor e da morte, e fitava com olhar altivo aqueles que o perseguiam.

Mas, por vontade do Pai, seu destino foi a cruel morte na Cruz. Cruz que era sinal de ignomínia, Cruz que era objeto de vergonha, Cruz que era considerada como maldição, mas que Ele ao se deitar sobre ela transformou-a em sinal de bênção e de glória, colocando-a sobre as torres das igrejas, as coroas reais e os altares.

“Ó Cruz fiel, entre todas a árvore mais nobre:

Nenhum bosque produz igual, em ramagens, frutos e flores.

Ó doce lenho, que com cravos tão duros um doce peso levais.

O Criador teve pena do primitivo casal,

que foi ferido de morte, comendo o fruto fatal,

e marcou logo outra árvore para curar-se do mal.”[1]

E tendo consumado seu sacrifício, a humanidade estava resgatada, as portas do céu estavam abertas, a Santa Igreja estava fundada, os Sacramentos instituídos. Uma nova era histórica, cheia de bondade e misericórdia se iniciava para o mundo, que antes de sua vinda estava mergulhado nas trevas do erro e do pecado.

São esses os fatos que a Igreja celebra na Sexta-Feira Santa da Paixão do Senhor. A Liturgia desse dia está dividida em três partes: Liturgia da Palavra, Adoração da Cruz e a Sagrada Comunhão. Nesse dia a Igreja não celebra a Santa Missa.

 

Liturgia da Palavra

A cerimônia começa com o solene cortejo de entrada do celebrante, ao som apenas da matraca, acentuando o sinal de luto pela morte de Cristo. Chegando ao presbitério o sacerdote se prosterna diante do Crucificado e reza em silêncio. Em seguida, se dirige à cátedra, sem oscular o altar. Então começa a Liturgia da Palavra, constituída por três leituras: a primeira de Isaias (Is 52, 13-53) fala do “Servo de Javé” o qual expia com seu sacrifício os pecados de todos; a segunda é da epístola aos Hebreus (4, 14-16; 5, 7-9) a qual contempla Cristo como Sumo e Eterno Sacerdote da Aliança perfeita e definitiva, Mediador entre Deus e os homens, graças ao seu sacrifício redentor; e a terceira é a Paixão de Cristo segundo São João, que contempla a Cristo como o Cordeiro Imolado, sem mancha ou deficiência alguma. O conjunto dessas leituras quer mostrar o caráter salvífico do sacrifício de Cristo, síntese do mistério Pascal.

Terminadas as leituras, e se julgar oportuno, o celebrante dirige aos fieis algumas palavras de exortação. Em seguida, são feitas algumas orações solenes, cuja origem remonta ao século V, e alguns conteúdos provém ainda do século I. São 10 orações, com intenção específica em cada uma delas: pela Igreja (1), pelo Papa (2), pelos ministros e fieis (3), pelos catecúmenos (4), pela unidade dos cristãos (5), pela conversão dos judeus (6), pela evangelização dos pagãos (7), pela fé dos incrédulos (8), pelos governantes das nações (9), pelos atribulados (10).

 

Adoração da Cruz

O rito da Adoração da Cruz é posterior ao da Liturgia da Palavra. Ele foi introduzido na liturgia Romana no século VII, por influência da liturgia celebrada em Jerusalém, na qual o bispo expunha na capela do Gólgota um pedaço da verdadeira Cruz, e cada fiel A osculava. Em Roma se conservou essa simplicidade, a qual permanece até nossos dias, com pequenos acréscimos. Após a entrada da Cruz em cortejo, o celebrante descobre o Crucificado que se encontra envolto num tecido roxo, enquanto canta “Eis o Linho da Cruz, vinde adoremos.” Em seguida a Cruz é depositada sobre um féretro e fica à disposição dos fieis para adoração.

Tal adoração é altamente benfazeja à piedade dos fieis, que têm uma experiência mística do sofrimento de Cristo e da necessidade de uma verdadeira conversão. E ao mesmo tempo um desejo ardente de sua Ressurreição, sem a qual “nossa fé seria vã”. (1 Cor 15, 14)

 

Sagrada Comunhão

O rito da distribuição da Sagrada Comunhão surgiu quase ao mesmo tempo que a Adoração da Cruz. Porém, no século XII, por causa de desvios rigoristas, ela deixou de ser distribuída aos fieis e passou a ser privilégio exclusivo dos clérigos. Tal costume só foi reintroduzido no pontificado de Pio XII, em 1955, e confirmado por Paulo VI ao aprovar a liturgia reformada. O rito se realiza de forma muito simples: o Santíssimo Sacramento, consagrado na Missa do dia anterior, In Coena Domini, e guardado no “Monumento”, é trazido em cortejo até ao altar, o sacerdote faz a oração do Pai Nosso e começa a distribuição da comunhão.

A cerimônia conclui-se com uma lindíssima bênção sobre o povo, que celebrou a Morte do Filho de Deus com esperança em sua Ressurreição. Com essa bênção é significada ao mesmo tempo a piedade com que se considerou a consumação da Paixão e a Fé na sua gloriosa Ressurreição. E assim fica iniciada a liturgia da Vigília Pascal, tema de nosso próximo artigo.

______________________

[1] Trecho de um cântico utilizado na liturgia da Sexta-Feira Santa da Paixão do Senhor.

Deixe seu Comentário