Tríduo Pascal III – Sábado de Aleluia
Papa Francisco durante a celebração do Sábado de Aleluia

Tríduo Pascal III – Sábado de Aleluia

Muitos julgam erroneamente que a celebração litúrgica de uma festa é mera representação ou apenas uma recordação de algum fato da vida de Jesus. Muito pelo contrário, quando a Igreja celebra algum episódio de seu Fundador, Ela atualiza as mesmas graças que foram dispensadas sobre a humanidade em tal ocasião. Por exemplo, quando se celebra o Natal, são derramadas sobre os participantes as mesmas graças que receberam os pastores ou os Reis Magos. E isso não é diferente no que diz respeito à celebração da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor.

“O que está acontecendo hoje? Um grande silêncio reina sobre a terra. Um grande silêncio e uma grande solidão. Grande silêncio porque o Rei está dormindo; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque o Deus feito homem adormeceu e acordou os que dormiam há séculos. Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos.” Esse belo pensamento é de um autor desconhecido, o qual quis deixar registrado apenas o título de sua meditação: uma antiga Homilia no grande Sábado Santo (séc. IV).

Grande Sábado Santo. Qual o motivo de se considerar com tanta importância essa celebração, talvez até mais do que a própria Sexta-feira Santa? “Se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados.” (1Cor 15, 17) Com efeito, Cristo se encarnou para resgatar a humanidade do pecado, e foi com seu sacrifício que pagou o preço desse resgate. Mas se Ele não tivesse vencido a morte, como poderíamos crer na eficácia de seu sacrifício? Como crer numa vida futura, eterna, livres da escravidão do pecado? Como ter certeza de que há uma outra vida depois dessa? A Ressurreição de Jesus Cristo era condição essencial para que pudéssemos ter esperança de uma existência depois da morte. Sem essa certeza de nada adiantaria praticar a virtude, almejar a santidade, suportar as perseguições, frequentar a Igreja, e mesmo ter uma religião.

Conhecer o sentido mais profundo da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo nos ajudará a reviver, em união com os Apóstolos e as Santas Mulheres, o momento mais importante da História da Salvação, fazendo-nos participar da “mãe de todas as santas vigílias” como disse Santo Agostinho.[1]

 

Bênção do Fogo e o Círio Pascal

A celebração do Sábado Santo se inicia do lado de fora da igreja, após o cair do Sol, na escuridão, para simbolizar o regime anterior à vinda do Messias, onde as trevas do pecado imperavam. Apenas uma fogueira está acesa, para significar que Cristo é a única “Luz do Mundo.” (Jo 8, 12)

O celebrante se aproxima em cortejo silencioso. Chegando diante da fogueira ele abençoa o fogo com uma linda oração: “Ó Deus, que pelo vosso Filho trouxestes àqueles que creem o clarão da vossa luz, santificai este fogo novo. Concedei que a festa da Páscoa acenda em nós tal desejo do céu, que possamos chegar purificados à festa da luz eterna.”[2]

Em seguida, grava no Círio Pascal vários sinais para torná-lo símbolo de Jesus Ressuscitado: a Cruz de nossa Redenção; as letras gregas Alpha e Ômega, que significam que Cristo é o princípio e o fim de todas as coisas; os algarismos do ano corrente, pois Ele é Senhor do tempo e em função d’Ele o tempo é computado; e por último, crava no centro e nas extremidades da Cruz cinco grãos de incenso, recordando o cuidado que Santa Maria Madalena e as Santas Mulheres tiveram com seu Corpo Sagrado, por cujas cinco chagas fomos curados. (cf. Is 53, 5)

Com uma pequena vela, símbolo da pequena comunidade cristã primitiva, o Círio Pascal é acendido, enquanto o celebrante recita: “A luz do Cristo, que ressuscita resplandecente, dissipe as trevas de nosso coração e nossa mente”. Dá-se início ao cortejo de entrada no recinto sagrado, o qual será interrompido três vezes. Em cada uma dessas interrupções, o celebrante, ou o diácono, canta com voz forte “Lumen Christi”, ao que todos respondem “Deo gratias”. E à medida que o cortejo vai avançando, as velas de todos os fieis começam a ser acesas, começando pelos concelebrantes e chegando a todo o Povo de Deus.

Assim que o Círio Pascal chega ao presbitério ele é depositado sobre uma base, e ali permanecerá até o fim do tempo pascal, que se encerra com a celebração de Pentecostes. Até essa data, o Círio deve ser acendido em todas as celebrações eucarísticas.

 

Proclamação da Páscoa e Liturgia da Palavra

Terminado o solene cortejo de entrada, e tendo os fieis já se acomodado, é feita a Proclamação da Páscoa através do “Precônio Pascal”, um belíssimo hino cuja composição é atribuída a Santo Ambrósio. Por ser muito longo não o colocaremos nesse artigo.

Em síntese esse hino nos convida à considerar as belezas de nossa Redenção, do amor que Deus teve para conosco. Ele prepara nossos corações para participarmos desta santa celebração, e abre caminho para a Liturgia da Palavra, que nesse dia tem uma riqueza e significado muito especial, apresentando uma síntese magnífica da História da Salvação no decorrer dos milênios.

São nove leituras – sete do Antigo Testamento e duas do Novo – cada uma seguida de um Salmo e uma oração. À medida que vão sendo lidas, forma-se um quadro grandioso que apresenta as maravilhas de Deus na Antiga Aliança e como essa Aliança conduz ao advento do Messias.

Terminadas as leituras do Antigo Testamento, é entoado o Glória. Nesse momento, os sinos que haviam sido silenciados desde a noite de Quinta-feira Santa voltam a repicar enquanto o coro canta o hino de louvor e alegria pela Ressurreição do Senhor. Nesse momento, as luzes se acendem, os véus dos retábulos enfeitados de flores são retirados, e exultam os corações dos fieis.

Logo depois canta-se um trecho da Epístola aos Romanos, o qual ressalta e explicita os ritos que acabaram de ser feitos: renovados pela gloriosa Ressurreição de Cristo, somos convidados a morrer para o pecado. (cf. Rm 6, 9-11)

O ápice dessa alegria é alcançado com uma única palavra, que foi omitida desde a Quarta-feira de Cinzas até esse momento: Aleluia. Precedendo a proclamação do Evangelho, o Aleluia é solenemente proclamado pelo diácono, e é cantado três vezes por todos os fieis.

 

Liturgia Batismal

Terminada a proclamação do Evangelho e a Homilia, inicia-se a Liturgia Batismal. Nos primeiros tempos da Igreja, a preparação para o batismo era concluída com a celebração do Sábado Santo, e nesse momento os catecúmenos eram batizados, tornando-se filhos da Luz, que é Cristo.

Esse rito se inicia com a Ladainha de Todos os Santos, através da qual a Igreja implora a intercessão dos Santos, deixando clara a união entre a Igreja Militante e a Igreja Gloriosa. Em seguida o celebrante coloca o Círio Pascal na água e a abençoa dizendo “Nós Vos pedimos, ó Pai, que por vosso Filho desça sobre toda esta água a força do Espírito Santo.” Em seguida, é realizado o Rito Batismal, e são renovadas as promessas do Batismo por toda a comunidade e é aspergida a água benta sobre todos os fieis, para que recordem estes também o seu próprio batismo.

 

Liturgia Eucarística

Depois de todos esses ritos começa a Liturgia Eucarística, na qual realiza-se a renovação incruenta do Sacrifício da Cruz, no qual o Cordeiro Imolado se dá a nós como alimento, santificando aqueles que creram em sua Ressurreição e renovaram as promessas batismais. Nesse momento, aqueles que foram batizados nesse dia solene, aproximam-se pela primeira vez do Banquete Sagrado, recebendo sacramentalmente Aquele que “retirado do rebanho, foi levado ao matadouro, imolado à tarde e sepultado à noite; ao ser crucificado, não Lhe quebraram osso algum, e ao ser sepultado, não experimentou a corrupção; mas ressuscitando dos mortos, ressuscitou também a humanidade das profundezas do sepulcro.”[3]

Com esse rito se encerra a celebração do grande Sábado Santo. Aqui termina o Tríduo Pascal e se inicia o Tempo da Páscoa, que vai do Domingo de Páscoa até a festa de Pentecostes, que será o tema de nosso próximo artigo.

 

 

[1] Santo Agostinho. Sermão CCXIX, 1: ML 38, 1088.

[2] Todas a orações utilizadas nesse artigo foram colhidas de: Missal Romano. 9. ed. São Paulo: Paulus, 2004, p.272.

[3] Melitão de Sardes. Homilia sobre a Páscoa, n.71.

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