Uma meditação sobre o Salmo 50
Iluminura medieval representando o Rei David.

Uma meditação sobre o Salmo 50

Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam. “Tende piedade de mim, Senhor, segundo a vossa grande misericórdia.” O salmo 50 é um dos textos sagrados mais comentados. Foi comentado em profusão pelos santos ao longo da vida da Igreja. Gostaríamos também de tecer alguns comentários, embora não estejamos à altura de tão grandes personalidades, mas na tentativa de fazer uma aplicação mais específica a nossos dias.

Convém, antes de tudo, ter em vista que o Salmo 50, ou Miserere como também é conhecido, pertence ao grupo dos sete salmos penitenciais. Por que se chamam penitenciais? Por que exprimem a dor e a penitência que alguém está fazendo pelos seus pecados. A nota característica dos salmos penitenciais é ressaltar a gravidade que tem um só pecado, já que ofende uma Majestade infinita. Em segundo lugar, considera-se a bondade e a misericórdia de Deus para os que, depois de terem pecado, se arrependem, pedem perdão e fazem um firme propósito de emenda.

Precisamos ainda situar nosso salmo, conhecer brevemente em que contexto ele foi composto, quem foi seu autor e o que o levou a escrever palavras tão cheias de unção. Rei de David: uma das figuras mais extraordinárias de todo Antigo Testamento, sendo um ponto de referência para todos os judeus da posteridade, escolhido pelo próprio Deus, de modo singular, para governar e pastorear o Povo Eleito.

Muito jovem ainda, enquanto pastoreava o rebanho de seu pai, foi ungido pelo profeta Samuel como rei. Depois de não poucas dificuldades com seu antecessor, Saul, conquistou a estabilidade, e seu reinado prosperava. Mas, como soe acontecer aos que perdem a vigilância e se deixam levar pela ociosidade, ele enfraqueceu na virtude. Na primeira ocasião que se apresentou ele pecou gravemente! Matou e cometeu adultério, tudo para satisfazer suas paixões exacerbadas pelo orgulho. Que ingratidão, depois de ter sido cumulado por Deus com tantos benefícios…

Então, Deus o castigou com rigor, como era costume no Antigo Testamento. Ele reconheceu sua falta, bateu no peito e se dispôs a fazer penitência. E foi nessas circunstâncias que ele escreveu os salmos penitenciais. Analisemos o seu texto:

“Tende piedade, ó Deus, segundo vossa grande misericórdia”. É muito bonito que David comece pedindo piedade, reconhecendo que ele é um pobre pecador e que Deus é o Ser supremo ao qual ele em sua miséria ofendeu, e inicia o “diálogo” com seu Criador lembrando o quão grande é sua misericórdia.

Et secundum multitudinem miserationum tuarum dele iniquitatem meam. “E segundo a multidão de tuas clemências, apagai minhas iniquidades.” Que bela expressão “multidão de tuas clemências”! Quer dizer, o pecador sabe que sem uma grande clemência ele não obterá o perdão, mas também sabe que Deus tem em relação ao pecador verdadeiramente contrito uma multidão de clemências, e confia que estas clemências apagarão todas suas iniquidades. A sonoridade da palavra iniquidade tem qualquer coisa de uma profunda execração ao pecado cometido que deixa transparecer a dor pela infidelidade a Deus.

O Prof. Plinio Correa de Oliveira, grande pensador católico, dá-nos um exemplo muito elucidativo para explicar o quanto Deus apaga mesmo o pecado desde que o pecador tenha as disposições de alma necessárias para isso:

“A palavra ‘apagar’ nos lembra o que faz o apagador com o que está escrito no quadro-negro. Pode este estar cheio de acusações contra o pecador, mas se alguém passar o apagador sobre tudo aquilo escrito em giz, tudo se desfaz em pó e o quadro-negro fica como antes.

“Assim é também a situação do pecador. Ofendeu a Deus. Mas se Deus ‘passar o apagador’ sobre aquilo, sua alma ficará como se ele nunca houvesse pecado.”

Amplius lava me ab iniquitate mea et a peccato meo munda me. “Lavai-me completamente do pecado, e apagai completamente a minha culpa.” É a compreensão que o pecador tem de que seu ato foi tão péssimo que precisa ser, por assim dizer, lavado por Deus, para que a imundície do pecado seja arrancada de sua alma para que ele volte a ser tão limpo e honesto quanto o era antes do pecado. É muito bonita a imagem de uma água que, tendo passado pelas mãos de Deus, lava o pecador e purifica sua alma da lepra do pecado. Isso vale muito mais do que a cura de uma lepra física, é a cura da alma.

Quoniam iniquitatem meam ego cognosco et peccatum meum contra me est semper. “Eu reconheço toda minha iniquidade, o meu pecado está sempre à minha frente.” É uma linda imagem do tormento causado pelo pecado como se sua má ação estivesse o dia inteiro diante de si, como um acusador diante do acusado. É algo tão doloroso para o pecador arrependido o fato de ter ofendido a Deus que a idéia do mal praticado não lhe sai da lembrança e lhe atormenta como se fosse um fantasma.

Tibi soli peccavi et malum coram te feci ut iustificeris in sermonibus tuis et vincas cum iudicaris. “Foi contra Vós, só contra Vós que eu pequei, e pratiquei o que é mau aos vossos olhos.” De tal maneira Deus vê tudo o que se passa com cada homem, que quando alguém peca é como se entrasse numa sala onde está apenas Deus e ele, e aí na presença de Deus ele cometesse o pecado. Só de imaginar que quando nós pecamos o fazemos de dentro de Deus, com toda a coorte celestial constituída por Nossa Senhor, os Anjos e os santos vendo nosso ato infame… Que horror! Pensar nisso no momento da tentação pode ser muito eficaz para afastá-la.

Ecce enim in iniquitatibus conceptus sum et in peccatis concepit me mater mea. “Vede, Senhor, que eu nasci na iniquidade e pecador já minha mãe me concebeu.” Neste trecho o salmista parece murmurar uma atenuante que é o fato de ele ter sido concebido no pecado original. É uma argumentação para ver se Deus se convence mesmo de perdoá-lo, pois se é verdade que ele consentiu no ato mal, é verdade também que ele já nasceu com a inclinação para o mal.

Ecce enim veritatem dilexisti incerta et occulta sapientiae tuae manifestasti mihi. “Mas Vós amais os corações que são sinceros, na intimidade ensinais sabedoria.” Deus é a verdade substancial e o pecado é o que há de mais oposto a Deus. É a própria mentira. Aquele que peca não amou a verdade e está numa situação de oposição a Deus. “Deus odeia a boca mentirosa” diz a escritura. Essa é a boca daquele que comete o pecado.

A essas alturas o pecador já se acusou abundantemente de suas iniqüidades e começamos a ver no versículo que segue a candura da alma que foi “lavada” por Deus e na qual as trevas do pecado e da escravidão vão sendo apagadas pelas multidões das clemências divinas.

Asparges me hysopo et mundabor lavabis me et super nivem dealbabor. “Purificai-me com hissopo, e ficarei puro; lavai-me e ficarei mais branco do que a neve.” Quem diz isso a Deus depois de ter pecado é porque possui um alto grau de confiança n’Ele. É muita ousadia dizer que ficará mais alvo do que a neve, uma alvura que chega a ofuscar as vistas. Assim se expressa o Prof. Plinio:

Auditui meo dabis gaudium et laetitiam exultabunt ossa humiliata. “Fazei-me ouvir cantos de festa e de alegria, e exultarão estes meus ossos que esmagastes.” Expressão muito eloqüente “exultabunt ossa humiliata”! Quer dizer, é tamanha a dor pelo pecado que ele se sentia com os ossos esmagados. Podemos calcular a alegria deste pecador quando ouve uma palavra de perdão, de reconciliação com Deus. Os ossos que estavam esmagados pela humilhação exultam de alegria quando sentem a misericórdia de Deus pousar sobre si. David não teve o privilégio de conhecer o sacramento da Reconciliação, e já teve essa experiência mística profunda. O que dizer de alguém que depois de muito tempo se aproxima do confessionário e recebe esse augusto sacramento? É uma sensação indescritível em palavras humanas.

Averte faciem tuam a peccatis meis et omnes iniquitates meas dele. “Desviai o vosso olhar dos meus pecados, a apagai todas as minhas transgressões.” Vemos mais uma insistência do pecador, já perdoado, de pedir que Deus esqueça de tal maneira o pecado cometido, que aparte o próprio rosto desse horror que foi praticado. Ele que é Onisciente e Onipresente, inspira o salmista a pedir que o Rosto divino se aparte dos nossos pecados, pois é o que realmente acontece, Ele não se lembra mais dos nossos pecados quando lhe pedimos perdão. Nós sabemos que todo e qualquer pedido bom é fruto de uma graça. Ora, se Deus dá a graça para fazermos o pedido é porque Ele quer a realização desse pedido. Tudo leva à conclusão de que Deus quer não apenas perdoar e lavar o pecador, mas inclusive esquecer o pecado praticado.

Cor mundum crea in me Deus… “Criai em mim, ó Deus, um coração que seja puro.” É realmente um pecador que se arrependeu profundamente de seus pecados, pois é um grande ato de humildade reconhecer que seu coração já não vale mais nada e pede um coração novo.

et spiritum rectum innova in visceribus méis. “dai-me de novo um espírito decidido.” É muito pungente o pedido. De tal maneira ele se encontra num estado deplorável que pede a Deus que o restaure por inteiro. Ele pede a Deus uma renovação que vá até onde seja possível.

Ne proicias me a facie tua et spiritum sanctum tuum ne auferas a me. “Ó Senhor, não me afasteis de vossa face, nem retireis de mim o teu santo Espírito.” Como ainda não existia o sacramento da confissão, era difícil ter certeza que Deus havia aceitado o pedido de perdão, e vê-se nesse trecho mais uma insistência para que Ele tenha misericórdia e não o castigue como sua culpa mereceria.

Rredde mihi laetitiam salutaris tui et spiritu principali confirma me. “Dai-me de novo a alegria de ser salvo e confirmai-me com espírito generoso.” Esse é o versículo que prova que o salmista não tinha nada de “áurea mediocridade”. Nada de coisas banais, tacanhas e pequenas. Ele pede algo de grandioso, de elevado, de sobrenatural.

Docebo iniquos vias tuas et impii ad te convertentur. “Então ensinarei aos transgressores os teus caminhos, e os pecadores a ti se converterão.” Agora vem um argumento de diplomacia. Ele promete a Deus que fará apostolado e que, portanto, há uma grande vantagem de ele obter tudo o que pediu antes.

Tudo o que acontece é para o benefício dos justos, diz São Paulo, e São Tomás acrescenta “até o pecado”. Depois de ter pecado, se arrependido, pedido e obtido o perdão, nasce nele uma nobre sede de sacrifício, um desejo ardoroso de fazer o bem, de trazer as almas transviadas para o bom caminho.

Llibera me de sanguinibus Deus Deus salutis meae exultabit lingua mea iustitiam tuam. “Da morte como pena libertai-me, ó Deus da minha salvação, e a minha língua exaltará vossa justiça.” Livrar-nos dos homens sanguinários é um belo pedido de que o homem contemporâneo muitas vezes julga dispensável, pois a maldade humana se vence com muito carinho e muito mel e açúcar… Isso é uma idéia falsa de que o mundo hodierno nos dá provas diárias. O homem moderno não é capaz de compreender a beleza que é Deus esmagando e vencendo o mal e conseqüentemente não é capaz de que sua língua exulte com a justiça divina aplicada implacavelmente contra os que tramam a perdição das almas.

Domine labia mea aperies et os meum adnuntiabit laudem tuam. “Abri, Senhor, os meus lábios para cantar, e a minha boca anunciará vosso louvor.” O homem é tão incapaz de praticar qualquer ato sobrenatural que se não for um auxílio especial de Deus, ele não é capaz de falar sobre Deus e cantar seus louvores. É muito bonito ver como ele se reconhece uma mera criatura infinitamente inferior ao seu Criador e se põe na dependência e contingência em relação Ele.

Quoniam si voluisses sacrificium dedissem utique holocaustis non delectaberis. “Pois não são de vosso agrado os sacrifícios, e se oferto um holocausto o rejeitais.” Aqui se revela, já no Antigo Testamento, uma verdade esquecida. O sacrifício que realmente compraz a Deus é o de si mesmo, quer dizer, a pessoa que se entrega totalmente a Deus, sem reserva de nada para si, esse sim oferece um sacrifício agradável a Deus.

Sacrificium Deo spiritus contribulatus cor contritum et humiliatum Deus non spernet. “Meu sacrifício é minha alma penitente, não desprezeis um coração arrependido!” É a continuação e explicitação do versículo anterior. Como é bela a expressão “coração contrito e humilhado” como sendo um sacrifício agradável aos olhos de Deus. É a prova de amor a Deus que leva o pecador à contrição, ou seja, mesmo que não houvesse inferno ele não queria praticar aquela ação má, pois desagrada seu Criador.

Benigne fac Domine in bona voluntate tua Sion et aedificentur muri Hierusalem. “Sede benigno com Sião, por vossa graça, reconstruí Jerusalém e os seus muros.” O salmista passa a interceder pela cidade de Sião, pois ela pecou tanto que se encontra numa situação semelhante à dele. É bem uma imagem do mundo moderno pelo qual nós temos que interceder, pedindo a Deus que intervenha o quanto antes e derrube a babel do pecado edificada em todos os cantos. O pior castigo que Deus pode infligir é o do aparente esquecimento em relação a quem peca. Essa é a situação desse mundo pecador, que voltou completamente as costas a Deus.

Tunc acceptabis sacrificium iustitiae oblationes et holocausta tunc inponent super altare tuum vitulos. “E aceitareis o verdadeiro sacrifício, os holocaustos e oblações em vosso altar.” Só depois dessa tremenda purificação é que Deus aceitará, novamente, o sacrifício de seu povo.

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